Se o muro caiu em 1989, para o mundo das ideologias socialistas algum
comentarista poderia dizer que nosso espanto era fruto da falta de informação a
respeito do que acontecia na antiga URSS, ou no socialismo real, em Cuba, Leste
Europeu, África e Ásia. Mas será possível dizer, que a experiência soviética
representou em essência o longevo e camaleônico socialismo em suas diferentes e
históricas roupagens? Ao cair do muro de Berlim, as criticas aumentaram de tom,
o que levou os socialistas de todos os matizes, em todos os países a fazer
duras reflexões e mea-culpa. O diagnostico martelado a foice era que
faltava mercado e outras instituições democráticas. Amartya Sen, prêmio Nobel
de Economia, mostra que na maior parte da história humana, o mercado
operou a troca de produtos e serviços sem meios de troca, seja o dinheiro,
ouro, ou o sal (lembra-se do salário?).
Quase 20 anos depois da queda do muro em Berlin outro muro cai agora no centro
financeiro mundial, o Wall Street, New York, com efeitos maiores, no tempo e no
espaço, do ponto de vista econômico e geopolítico. Antes de continuar, é
preciso dizer que se Berlim foi centro mundial do debate ideológico, no século
XIX e XX (aquele acabou cedo, em 1989, segundo o historiador inglês Eric
Hobsbaum), e que Nova York ocupará esse lugar até 2008. Ao redor um trilhão de
dólares dos cofres do tesouro americano foi utilizado no saneamento
desta crise mundial de liquidez dos mercados financeiros, que inflacionou o
mercado internacional sem socorro aos cidadãos do mundo. A mão invisível,
sempre ela, retira do erário público o socorro para as grandes empresas e
bancos norte-americanos, e ninguém vai preso. A causa central apontada foi a
existência de uma cadeia sistemica de corrupção dos agentes reguladores do
sistema financeiro. O sociólogo Emanuel Wallestein explica que no capitalismo
quem contribui para a acumulação de capital merece ser recompensada com divisão
de lucros á parte do sistema de salários, ou por debaixo do pano com a
corrupção.
Na queda desse muro na Big Apple (NY city), o diagnóstico foi de que se precisa
do estado para regular as falhas do mercado. É quando a mão invisível se torna
a mão visível do estado. Numa primeira leitura, este desenvolvimento histórico
poderia parecer complementar. As duas principais ideologias da guerra fria
enfim fazem sua autocritica abrindo espaço para acordos, e uma ou várias possíveis
terceiras vias. Estes dois terremotos ideológicos e paradigmáticos, New
York e Berlin, abriram espaço para que os críticos de todos os lados
dissecassem as tradições políticas do século passado. Ignacy Sachs, economista
polonês, alerta que o importante é que cada nação construa seu próprio modelo.
Contudo, de ambos os lados existem os puristas, que acreditam que seu sistema
econômico e social ainda não deu certo, ou mostrou falhas, pois não foi ainda
aplicado completamente, sem impurezas do outro lado, como se as sociedades
fossem formadas apenas pelas dimensões das trocas econômicos, e relações de
poder. A complexidade desta encruzilhada da história humana esta no fato de que
o mercado, que os socialistas estão dispostos a aceitar, mas com seu tempero, e
o socialismo que o mercado financeiro aceita é aquele que o socorre, mas não a
versão integral do estado planejador e interventor das experiência reais do
socialismo.
Apesar de tudo, há espaço para o diálogo aos homens e mulheres de boa vontade,
tendo-se em vista que a financeirização dos mercados, dada como uma realidade
difícil de ser contestada impõe que as sociedades estabeleçam
normas aos mercados internacionalizados. Será isso possível? Quanto ao estado
ideal, para os liberais deve ser mínimo, mas um salva-vidas nos momentos
turbulentos, e financiador dos avanços científicos e tecnológicos, condição
sine qua non para participar dos competitivos mercados. Aos socialistas, é oferecida uma
gama de modelos de estado desenvolvimentista, que se torna aliado dos
"campeões nacionais", as grande empresas que podem competir neste
mercado internacional. Tais opções são arriscadas, e traçam uma linha
divisória entre governos populares de inspiração socialista, e governos
neoliberais de inspiração liberal. De todo modo, seria natural prever, que os gestores estatais e os
políticos de diferentes países buscariam também um grau mínimo de articulação e
cooperação internacional para fazer frente a integração e concentração dos
mercados. Até aqui nada de novo, apenas o óbvio-ululante como diria o teatrologo brasileiro Nelson Rodrigues.
O novo mesmo virá possivelmente da criação de novos instrumentos, que consigam
criar novos valores além do agora onipotente valor de troca. Na economia
ambiental, tal movimento já se iniciou com o uso das técnicas de analise
contingente, e de criação de novos mercados para serviços da natureza, não
equacionáveis em termos de curvas de demanda e oferta. A tarefa agora é
estabelecer valores para o conhecimento cultural, recriado ou tradicional, bem
como as tradições, símbolos e mitos. É preciso urgentemente estabelecer o
valor humano, e traçar a linha de base dos direitos humanos necessários á
felicidade possível dentro deste capitalismo atual, diga-se não de
passagem, a mais notável maquina de criação e concentração de riquezas já
inventada. No Brasil, 4 ou 5 bilionários tem uma renda maior que a metade da
população, ou 100 milhões de habitantes.
A economia da felicidade deve transmutar-se na economia dos direitos humanos á
felicidade. E a felicidade, por definição, tem suas condições construídas
socialmente. Esta linha de base social agrupa o conjunto de recursos, que todos
podem usufruir, tais como o meio ambiente equilibrado, educação e cultura de
qualidade para todos, e saúde. Quando alguém se diz feliz, pois conquistou isso
ou aquilo, deve lembrar que existe uma sociedade por trás, que em co-evolução
com seus indivíduos, propicia as condições para aquela felicidade. Alguém diria
que desde a Grécia o número de indivíduos, que realmente define o que é a
sociedade, sempre foi limitado. É certo, mais hoje temos as ferramentas para
ampliarmos a participação social, e os processos cooperativos necessários
para que a construção da linha de base da felicidade social, que faz com que a
felicidade individual se multiplique, e se descole da materialidade das coisas
e seu fetiche do dinheiro.
Se este é o principal objetivo
dos seres humanos, é possível pensar em um sistema econômico, que caminhe
para uma linha de base social da felicidade humana, ou em outras palavras, um território de direitos e oportunidades, um aeroporto para os
projetos pessoais, que "pousam" e "decolam" em sociedades
mais inclusivas. Os padrões ideológicos da guerra fria ainda persistem, pois
dão amparo a instituições sociais e políticas existentes, mas
estes padrões podem fornecer elementos para a construção de sistemas socioeconômicos
mais complexos e adaptados a cada país e região, e em comunicação aberta entre
países e cidadãos.