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terça-feira, 7 de abril de 2020

As Crises Híbridas do Coronavírus

Existe um pequeno conto fantástico brasileiro que mostra a historia de uma família de 8 pessoas que vivia em uma pequena casa. Eles habitavam um casebre com alguns problemas: tubulações entupidas, goteiras, rachaduras na parede, e a localização muito próxima a uma movimentada rodovia. 

O relacionamento entre os 8, à parte os laços familiares entre filhos, netos, pais, avós, sogras, cunhados, genros, deteriorava-se  a cada dia. Um esquema foi criado para que todos pudessem dormir em horários diferentes concernentes aos tipos de ocupações desempenhadas. Outros esquemas foram desenvolvidos para que todos utilizassem a cozinha, e de alguma forma colaborassem com a manutenção da casa.

O pai era guarda noturno, a mãe fazia brigadeiros pela manhã e entregava-os de tarde, o avô vendia bilhetes de loteria o dia todo e só aparecia á noite, uma nora era costureira e trouxe sua barulhenta maquina para a casa, o genro era músico. A tensão crescia a olhos vistos, e consciente e inconscientemente, todos previam que a grande crise estaria próxima. Um certo dia, o pai acordou com a ideia de ter um porquinho de estimação.  Saiu de casa resoluto: iria criar um porco, e colocá-lo na sala.

Claro, o porquinho precipitou a crise. A crise não era um cisne negro fazendo menção á imagem criada pelo matemático e especialista em gestão de riscos, Nassim Taleb, para designar problemas desconhecidos e imprevisíveis (unknown, unknown). Neste sentido, a crise que acontece com a chegada do porquinho de estimação era um cisne branco, ou seja, um problema conhecido que chega de modo inesperado (known, unknown).

Por causa da chegada do porco, palavrões em escala de decibéis aumentada faziam cada vez mais parte dos dialogos da família. Um parente saiu de casa mas depois voltou. Ao final, todos se afeiçoaram ao animal, e até o consideraram-no um mal que veio para o bem.
 
O amor ao mamífero havia apaziguado os conflitos. O bicho era pajeado e alimentado por todos. Cresceu, ficou forte, engordou e um dia sem avisar foi levado pelo pai a um terreno baldio próximo onde o sacrificou. A revolta na casa foi geral, metade não queria comer o porco, a outra queria, mas todos admitiram, que o assado estava cheirando muito bem. Um dia depois do festim, novos conflitos nasceram motivados por outros motivos, que não a falta de espaço, mas os velhos conflitos retornaram agora por outros motivos.

Este conto de fadas às avessas, fala da extrema adaptabilidade da humanidade às situações de escassez, que levam a criação de estratégias de colaboração e a uma governança de recursos comuns escassos. Antes do coronavírus vir a baila, como o porquinho da história, viviamos em um planeta azul com mais ou menos 8 bilhões de habitantes. Um bilhão de pessoas pertenciam as classes ricas e médias, outro bilhão era de miseráveis, ou seja aqueles que viviam com até dois dólares por dia segundo a métrica economicista. Os outros seis bilhões gravitavam entre estes dois polos ganhando no máximo 2 salários mínimos brasileiros.

Um grupo pequeno de bilionários, ao redor de 2500 indivíduos,  detinha até o ínicio da pandemia 70% da riqueza do planeta, ou mais. De fato, os 10% mais ricos concentravam mais do que 90% da riqueza, e a conta continuava a subir. A verdade é que o um bilhão mais pobre era composto basicamente de pequenos agricultores que ocupam áreas degradadas, mais parte deles, uns 15%, vive sobre ricos ecossistemas naturais onde se concentram 90% de todos os recursos minerais do planeta. È um pobreza relativa estacionado numa riqueza potencial imensa.  

Até o início de 2020, excetuando os ricos, todos estavam convivendo com cada vez menos emprego e renda do que tinham nas últimas décadas. Aumentos de PIB ainda eram comemorados por todos não se sabe bem o porque. Talvez na esperança de que as migalhas que caiam da mesa do capitalismo financeiro alimentaria a todos. E assim íamos vivendo convencidos de que não havia outro sistema econômico senão o capitalismo neoliberal financeiro, para produzir coisas e oferecer serviços. 

Embora nossa casa-planeta fosse grande, alguns recursos importantes já estavam escasseando. Alguns grandes rios nem chegavam mais as suas embocaduras dado a alta demanda de água em suas margens. A atmosfera não dava mais conta de dissolver os gases de efeito estufa. Seguidamente a cada ano, tínhamos um recorde de máximas temperaturas em alguma região do nosso planeta.

Quanto a democracia, esse valor universal que a revolução francesa nos legou 2 séculos atrás com seus três pilares inabaláveis (solidariedade, liberdade e fraternidade), havia um crescimento contínuo de grupos nacionalistas de extrema direita reclamando da degeneração da globalização, que estaria destruindo os valores e empregos locais, valores nacionais e familiares. 

Havia também crescente desconfiança na ciência, gestada em ambientes não familiares, as universidades, e gastadoras de dinheiro público sem produzir nada que melhorasse a vida de todos. Destinados a vivenciar uma nova união entre estados nacionais, igrejas mundiais eram irrigadas por fluxos internacionais de dinheiro, seja o dólar, ouro, yien, bit-coin ou outra moeda. Até aqui seguiamos sob regras de geração e acúmulos de capitais, e também de regras mais ou menos conhecidas de como o sistema capitalista entra em crise periodicamente: há o tempo de distribuir salarios e há o tempo de concentrar (ainda mais) a renda.

Veio a pandemia, que deixou no mundo um rastro de 7 milhões de mortes oficiais, mas que podem chegar a 20 milhões segundo estimativas que contabilizam a subnotificação. Depois de 3 anos, a pandemia arefece, e vira epidemia como uso das vacinas, mas talvez tenhamos mais de 1 bilhão de pessoas contaminadas pelo virus, e de 400 a 500 milhões de pessoas com covid longa e seus sintomas, que precisarão dos sistemas de saúde, oque irá onerar toda a sociedade mundial, e em especial os países mais pobres.

Em 2023, já sabemos que o número de bilionários aumentou assim como o número de pobres. Voltamos á uma normalidade pos-pandêmica na qual as estruturas, o harware ainda é o mesmo, mas mudaram algumas linhas da programação do software. A crise sempre é a possibilidade de ver claro uma situação. E depois que a verdade é vista, ela não volta mais para debaixo do tapete.

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