A vida política brasileira desde a reeleição de Dilma Rosseuf em 2016 parece que entrou em um modo de retroalimentação positiva, conhecida entre os usuários da teoria dos sistemas como "efeito bola de neve". Os agentes políticos ao invés de recorrerem aos mecanismos de controles e salvaguardas democráticas exercidas por instituições designadas em lei partem para uma queda de braço explicita, onde os julgamentos são feitos a queima-roupa e divulgados na imprensa. Para os eleitores parece o que é: o sistema político gira em falso, perde-se as regras entre adversários, agora inimigos em guerra de extermínio.
A sensação é de vertigem, como se uma avalanche fosse eminente. E veio o impeachment, a operação lava-jata ganha super-poderes, o ex-presidente Lula é preso, mais prisões de empresários, paralisação de grandes empresas, desemprego escalando uma situação econômica agravada pela diminuição dos preços das comodities agrícolas e minerais. Quando isso acontece é geralmente acompanhada de instabilidade política nos países da América Latina, que tem nas comodities sua principal pauta de exportação.
Salto no tempo. Antes do primeiro turno da eleição de 2022, no blog do jornalista Pedro Doria, ele confessa que diante da incerteza da vitória de Lula, teve uma crise de pânico dentro de um taxi ao considerar a possibilidade da vitória de Bolsonaro, e a consolidação de seu projeto reacionário. O mesmo Bolsonaro que havia tido 2 votos na eleição para presidente do congresso nacional em 2017, e que em meio a avalanche da caça aos corruptos parecia surfar incólume junto a seu grupo de apoio formado pelos empresários, donos dos meiso de comunicação, cúpulas das forças armadas e lideranças do agronegócio. Seu apoio popular de aproximadamente 30% de eleitores era surpreendente mesmo depois da acusação de ter capitaneado uma irrresponsável estratégia do governo federal para combater a pandemia, e com um trágico resultado de mais de 700.000 mortes.
Pedro Doria é um exemplo de um personagem experiente da mídia, uma das instituições que deveriam atuar como controle e salvaguarda da democracia, e que resolveu atuar como juiz de acusação nos processos de corrupção. Essa caçada aos corruptos e inimigos políticos já aconteceu em vários momentos da vida brasileira ameaçando ceifar a cabeça de qualquer um.
Infelizmente, o pânico que ele sentiu é parte daquele que ele ajudou a infligir. Em certo momento, parecia ser claro: o futuro do Brasil exigia a eliminação do partidos de esquerda. Diversos atores com sinais e instituições trocadas passaram a julgar, acusar, absorver, legislar, decidir em um processo sem freios do tipo "bola de neve", que ameaçava fazer terra arrasada de toda possibilidade de dialogo. Haviam os certos, e os errados não tinham ao menos o direito ao pleno exercício da defesa.
Atores políticos, jornalistas e intelectuais em um justo afã de transformação e melhoria da nossa democracia, colocaram em risco a própria democracia ainda que capenga. O direito de discordar, e de constituir minorias é o ponto de equilíbrio da democracia, que pode ser vista com uma recurso comum, com regras de compartilhamento. Além disso, o direito ao estado de inocência até que o processo jurídico tenha ultrapassado todos os estágio de um julgamento, ao lado do direito da ampla defesa, é fundamental para que a tragédia dos comuns não se repita no ambiente das decisões políticas.
Na tragédia dos comuns termo criado por Garret Jardin, biólogo norte-americano, os usuários de um recursos comum não respeitam regras de compartilhamento do recurso, e este acaba extinto levando a serias consequências. O exemplo utilizado pelo professor Garret é de um grupo de agricultores, que utilizam uma área comum para a pastagem de suas ovelhas. Se não houver regras de uso a tendência a colocar mais uma ovelha leva a um aumento de ovelhas acima da capacidade de suporte da área de pastagem.
Em 2023, pode-se dizer que a democracia brasileira saiu vencedora mas precisa reafirmar suas regras de convivência e compartilhamento do espaço público para o debate, a reflexão, e a opinião. Essa é uma responsabilidade de todos os brasileiros.