Era uma vez...
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sexta-feira, 27 de dezembro de 2024
domingo, 22 de dezembro de 2024
IA mas pode me chamar de DA
Vou ficar aqui sentado, ouvindo Bill Evans e Chet Baker, enquanto as notícias sobre erros da IA se multiplicam em diversos lugares do mundo, em diferentes áreas, como medicina e bolsa de valores. De solução futurista para tudo, a inteligência artificial (IA) — um nome mal colocado — mostra seu lado deletério. A inteligência é uma capacidade humana complexa e analógica, não computável, capaz de identificar nuances, contradições e incertezas em situações reais, sem que essas informações necessariamente estejam armazenadas na memória. Está ligada ao futuro e à construção de cenários de decisão. Afinal, o que é a IA?
Decisões Artificiais (DAs), baseadas em algoritmos, foram equivocadamente batizadas de Inteligência Artificial. As DAs são sistemas computacionais e informacionais que se abastecem de séries históricas de eventos padronizáveis para serem utilizados em tomadas de decisão. Elas fazem apostas estatísticas para prever o próximo movimento baseado no passado, tentando adaptá-lo ao futuro. Em matemática, dizemos que uma tendência em um conjunto de dados segue a tangente à curva que melhor representa o comportamento desses dados. Infelizmente, ou felizmente, a realidade é muito mais complexa do que curvas lineares de dados.
O truque está na velocidade sobre-humana com que uma solução simples é encontrada para um problema complexo — mas que frequentemente está errada. Como "tempo é dinheiro" na economia neoclássica, não se pode perder tempo até que uma avaliação mais criteriosa seja feita. Assim, a velocidade se torna a prova dos nove: o leopardo é melhor que o leão porque é mais rápido.
Dessa forma, a IA deve ser renomeada como DA, pois se baseia em imensas simplificações para resolver problemas complexos, que frequentemente não são triviais nem padronizáveis. Os erros, como os observados no ChatGPT, que utiliza seus usuários para treinamento, podem parecer hilários e jocosos inicialmente, mas, com o tempo, podem se tornar graves, especialmente quando aplicados a questões como a crise ambiental.
É fascinante observar como uma solução errada, oferecida em milésimos de segundo, pode ser chamada de "inteligente". Enquanto isso, no mundo real, os problemas humanos e planetários se amplificam. Quando usamos DAs para enfrentar os problemas reais da sociedade, há o risco de agravarmos as crises. Frente aos erros das DAs, os humanos que as criaram podem argumentar que estamos apenas aperfeiçoando essas ferramentas, ou, em termos schumpeterianos, engajados em um processo de "destruição criativa".
Ainda não percebemos que fazemos parte de um grande experimento global. Quando as sementes transgênicas foram lançadas no mercado, sem benefícios claros para os consumidores, algumas vozes denunciaram que aquilo era um laboratório a céu aberto, conduzido sem o consentimento das pessoas. Com as DAs, treinamos as ferramentas através de decisões que impactam a vida das pessoas, muitas vezes sem que elas saibam. Isso é ainda mais sério do que o caso do hackeamento de dados eleitorais norte-americanos pela Cambridge Analytica durante a eleição de Donald Trump.
Problemas complexos não têm soluções simples, especialmente os problemas ambientais. Participei de dois cursos oferecidos por uma agência de cooperação europeia sobre a aplicação de uma ferramenta de DA, a análise multiagentes, a um problema ambiental: o desmatamento. Durante um dos cursos, solicitei ao engenheiro europeu que mostrasse as linhas de programação do módulo de percepção humana do algoritmo usado para modelar decisões dos agentes envolvidos no desmatamento de uma região da Amazônia.
O módulo continha apenas três linhas de código. Tendo trabalhado com percepção ambiental no meu mestrado, sabia que, desde Aristóteles até Carl Jung, a percepção humana é considerada um dos maiores desafios na compreensão da psique e dos processos de decisão. Mas no algoritmo em questão, três linhas de código eram consideradas suficientes. Só que não: eu havia visitado a área em estudo, e o desmatamento previsto para dois anos no futuro já estava acontecendo.
O que precisamos compreender é que há outro tipo de inteligência humana por trás das DAs, coordenando o trabalho dos que constroem e treinam os algoritmos: a inteligência híbrida (IH). Exercida por algumas poucas empresas globais, a IH captura dados e informações em massa para criar módulos de resolução de problemas, muitas vezes sem o consentimento explícito dos usuários. Cria-se um ambiente que reforça os poderes "sobre-humanos" das DAs, atraindo milhões de pessoas em busca de soluções rápidas e baratas para seus problemas.
Mas, afinal, que magnetismo é esse que as DAs exercem sobre os humanos? Essa é a segunda geração das DAs. A primeira foi o "surfar na rede", a "navegação grátis", que gerou enormes bancos de dados sobre comportamentos dos consumidores e seus conteúdos, vendidos para empresas. A segunda geração vai mais fundo: armazena processos de decisão e vende informações sensíveis sobre padrões sociais para governos e blocos econômicos. Como as pessoas decidem? Quais padrões estão por trás das perguntas que fazem? Tudo isso é fruto de inteligências humanas, que não são remuneradas por esse uso.
David Ricardo, economista do século XIX, se reviraria no túmulo ao saber disso. Para ele, o valor de um produto depende dos insumos usados em sua produção. Já as DAs perpetuam o passado ao tentar projetá-lo como se fosse o futuro, criando uma "santificação científica" que alimenta falsos profetas.
O que as DAs podem fazer de útil para resolver problemas humanos? Primeiro, é preciso evitar seu uso para prever eventos futuros não lineares e complexos. Segundo, identificar onde as DAs podem trazer riscos à sociedade. Com controle social, podem organizar dados padronizados de utilidade pública, como medicina virtual, tráfego, tarefas domésticas e controle de acidentes, liberando os humanos para atividades criativas.
É essencial, porém, regulamentar o uso das DAs. Profissionais das universidades, que estudam a inteligência humana em suas várias expressões, podem ajudar a criar um aparato normativo que fortaleça a justiça social, a democracia e a liberdade de expressão.
quinta-feira, 5 de dezembro de 2024
Capoeira: Cultura de Corpo
Seria possível uma cultura fora do corpo, ou dos corpos? Algo externo, que, através da linguagem, produziria conteúdos automatizados, os quais influenciariam corpos e mentes sem ter nada a ver com eles? Mesmo em mecanismos de decisão artificial, baseados em algoritmos (DA), erroneamente chamados de inteligência artificial (IA), a presença humana, antes, durante e depois, assegura defini-los como máquinas robóticas de geração e transmissão de informações sob orientação humana.
O desenvolvimento da cultura, por simetria, repete os sistemas complexos ancestrais, marcados por retroalimentação, criação de padrões emergentes, seleção ambiental e evolução, só que numa velocidade de tempo muito maior e direcionada à cultura. A evolução cultural se dobra e passa a atuar como seleção socioambiental, onde se combinam a seleção natural e a cultural, ao lado de aspectos importantes da reprodução sexual, que aumentam o grau de variabilidade, no caso dos seres humanos.
A gênese da cultura da capoeira se plasma a partir do imenso fluxo migratório forçado pela indústria da escravidão no século XVI, no qual entre 4 a 5 milhões de pessoas cruzaram o oceano Atlântico. Nas terras brasileiras, vão encontrar, além dos colonizadores portugueses, em menor número, um imenso contingente de populações nativas locais. Durante quatro séculos de imensa troca gênica e cultural, vai sendo gestada a arte da Capoeira, uma mistura de jogo, dança, luta e ritual, uma amalgama entre a história cronológica e a impressa nos corpos do povo novo, os brasileiros.
Na Capoeira, é possível ver nos saltos, negaças, fintas, defesas e golpes, ao som de variados instrumentos musicais, os produtos da evolução cultural a partir da evolução biológica, de tal modo abraçados, que podemos dizer que a Capoeira modifica o cérebro e o corpo, como acreditam neurocientistas como Sidarta Ribeiro (que é também capoeirista), e o cérebro modificado transforma a capoeira, que modifica novamente o corpo em um jogo que envolve plasticidade cerebral, condicionamento corporal e criatividade cultural de tal forma entrelaçadas, que é correto dizer que a Capoeira é uma cultura de corpo.
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