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sábado, 17 de fevereiro de 2024

Renascimento Ecológico

Desde a década de 70, elaboramos conceitos que buscam construir uma convivência harmônica entre crescimento econômico e equilíbrio socioambiental. Já próximo da terceira década no novo milênio, ou seja, mais de 50 anos depois nos debatemos com estes já velhos conceitos como ecodesenvolvimento, sustentabilidade e resiliência, e os novos como adaptação climática, sem que tenhamos visto uma mudança de direção na conciliação entre economia e natureza.

Criamos pegadas ecológicas e de recursos naturais, elaboramos ciclos de vida e sistemas de contabilidade ambiental, bem como contas nacionais de serviços ecossistêmicos e logramos resultados louváveis, que contribuem para que as mudanças climáticas não sejam mais dramáticos do que as que já estamos enfrentando neste verão no hemisfério sul. Mas, infelizmente não alteramos os vetores do crescimento econômico e da degradação ambiental. Janeiro de 2024 foi o janeiro mais quente da história da humanidade.

Do fetiche da mercadoria ao culto das bolsas de valores, não logramos incorporar a economia nos ecossistemas e vice-versa. A criação de hot-spots de biodiversidade é muito importante e temporariamente salva pedaços significativos da superfície e da memória planetária, e nos ajuda a manter a homeostase da vida no planeta Terra. Mas necessitamos de uma mudança cultural profunda, não apenas tecnocrática e econômica. 

Vivemos uma crise, que antes de ser climática e ambiental, é de percepção de nos mesmos como organismos e seres culturais, que se transformam e dependem da biosfera. Essa mudança cultural não pode ser equivalente a novas modas de consumo sustentável, que acabam sendo incorporadas como novos fatores de crescimentos econômicos. São necessários esforços integrados, em todos os níveis, para conquistar corações e mentes em direção a mudanças de percepção na nossa maneira de vermos a nós mesmos. nosso planeta e nosso futuro comum.

Temos a tecnologia da informação, e um conjunto de novas teorias econômicas, sociais e filosóficas necessárias para darmos o salto para um renascimento ecológico onde cada ato social ou econômico que degrade nosso patrimônio comum seja compensado, e ultrapassado, por atividades que regenerem o planeta como clama o filósofo Edgar Morin.

Vamos decrescer tudo que degrada nossa percepção e ação em busca da renascença ecossistêmica, e crescer todas as atividades, e atos culturais que valorizam nossos commons, palavra antiga do inglês para desiginar aqui que é comum a todos. Precisam reaprender valores culturais com aqueles que convivem consigo mesmos e com a natureza: os povos indigenas e tradicionais. A ciência e tecnologia disponíveis a serviços destes valores nos colocará numa era de renascimento ecológico, ou seja, no antropoceno a serviço da regeneração dos ecossistemas do planeta Terra.


 

terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

Renascimento Ecológico e Feudalismo Tecnológico

Quando muitos de nós se perguntam se ainda estamos vivendo no capitalismo, o ex-ministro da Grécia, Yanis Varoufakis consegue um feito importante em seu novo livro: amarrar uma série de conceitos que viam circulando a respeito do que esta acontecendo com o capitalismo, e fazer uma amalgama interesante e reveladora. 

Nos últimos anos, eu tenho ouvido de amigos e pensadores termos como "Capitalismo Cognitivo", "Capitalismo Digital", "Capitalismo da Nuvem", e " Capitalismo Delivery" e outros termos parecidos. Estamos vivendo algo diferente, que até para aqueles que constroem cenários de futuro dos países líderes, como EUA e China, fica dificíl desenhar os contornos futuros deste novo sistema. 

Não nos darmos conta das implicações, multiplicações, e da velocidade das mudanças a frente de nós. É ai que entra o conceito cunhado pelo Yanis. Para quem não viu ainda o vídeo de lançamento de seu novo livro "TechnoFeudalism", abaixo vai o link:

https://www.youtube.com/watch?v=Fhgm5b8BR0k

A construção do conceito de "Feudalismo Tecnológico" surge da tentativa de Yanis de construir um cenário de futuro não pensado ainda, a partir de uma pergunta geradora: Como iremos transformar esse "Capitalismo de Nuvem" em um "Commons de Colaboração Humanista (CCH)"? 

No Capitalismo de Nuvem, as categorias de servo, vassálo e senhor presentes no feudalismo da baixa idade média se atualizam, e estabelecem um interessante paralelismo com o que estamos vivendo. A grande maioria de nós, seriam hoje servos, treinando e sendo treinados pelos algoritmos, e sem remuneração. Vassálos são os capitalistas de ontem, que continuam a atuar no mundo físico (industriais, comércio, agricultura, etc) e transferem seus lucros para os senhores das grandes plataformas de comercialização e entreterimento da internet, como a Amazon e o Google.

O CCH mal surgiu como uma possibilidade, alguns diriam utópica, e seus contornos começam a ser desenhados, pois temos uma tarefa inadiável: reverter a crise climática e ambiental do planeta Terra criada pelo capitalismo neoliberal e aprofundada pelo capitalismo de nuvem. A gestação de um renascimento ecológico necessitaria de um CCH para organizar um decrescimento das atividades, que diminuem e aprofundam a crise climática e ambiental, e estimulam o crescimento de atividades, que aumentam a resiliência e a biodiversidade dos ecossistemas.

O conceito de Renascimento Ecológico foi popularizado pelo autor e ativista social Jeremy Rifkin, que escreveu o livro "The Green New Deal: Why the Fossil Fuel Civilization Will Collapse by 2028, and the Bold Economic Plan to Save Life on Earth" (2019). Este conceito foi abraçado pela congressista norte-americana Alexandra Ocasio Cortez, que foi muito criticada pela ideia do New Green Deal. 

De toda forma o conceito não saiu da caixinha, e fica apenas na seara ecológica, não atraindo a atenção dos tomadores de decisão. Talvez, Jeremy Rifkin não tenha divulgado com clareza uma sintese do atual capitalismo, e qual o seu modo de explorar recursos naturais e pessoas.

Mas o que é fundamental e precisa passar por um renascimento? Os valores da harmonia com a natureza cultivados pelos povos tradicionais, e indigenas de todo o mundo. Este valores seriam o guia de um  processo planetário de inovações sustentáveis necessárias para diminuir 80% das emissões de carbono até 2050. 

Mas para isso, é preciso entender as ferramentas disponíveis de um futuro CCH, e como podem ser utilizadas para o Renascimento Ecológico. Teriamos que construir um novo sistema financeiro desacelerando ações ligadas a negócios, que diminuem a resiliência da biosfera, e acelerando atividades sustentáveis, na agricultura, comércio, indústria, e nas atividades do capitalismo de nuvem. 

Plataformas públicas de comercialização e compartilhamento de produtos e serviços, que reduzem suas emissões de carbono e protegem o meio ambiente, seriam organizadas por blocos econômicos, ou por ecossistemas. Conta Nacionais Ambientais (CNA) seriam organizadas, com indicadores de sustentabilidade setoriais para pontuar produtos e serviços ofertados no mercado nacional e mundial. Em cada bloco econômico, plataformas de compras públicas sustentáveis seriam organizadas para que o cada estado nacional seja o maior comprador e estimulador da conversão a uma produção sustentável. 

Este esforços coordenados em todo mundo ajudaria a diminuir drasticamente as emissões de carbono, que circula pela atmosfera comum a todos. Segundo o matemático e pensador Nassim Taleb, se 25% de todos os processos de produção forem inovados conseguiremos reduzir estes 80% das emissões de carbono, e se estas inovações estiverem  em rede poderemos acelerar o processo exponencialmente, e cumprir a meta do Acordo de Paris de evitar os 1,5 graus celsius de aumento da temperatura média global até 2050. No ínicio do ano de 2024, a media da temperatura global já é 1,56 graus celsius.

Estamos atrasados mas estamos partido do zero. Pessoas como Rachel Carson e Chico Mendes foram gigantes, onde podemos nos apoiar nessa incrível jornada de criação de um Renascimento Ecológico no planeta terra.




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