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segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Salvo pelo "Clone"

Eu caminhava tranquilamente por uma feira noturna em Ipanema quando me deparei com o ator Victor Fasano, que ficou famoso com a novela "O Clone". Tomei um susto ao ver o ator, que também se assustou ao perceber nossa leve semelhança, ou talvez devido à altura parecida (ele é mais alto) e ao fato de ser mais forte. Fim do primeiro ato.

Anos depois, entrei em um ônibus em Jerusalém para voltar à fronteira sul, na cidade de Eilat, do lado israelense, e depois para a cidade de Taba, do lado egípcio. Alguns jovens me saudaram na entrada e me chamaram de "Clone": "He is the clone, he is the clone!", diziam, entre risadas. Sentei-me na minha cadeira no meio do ônibus, e uma soldada israelense que estava sentada nas primeiras cadeiras veio sentar-se ao meu lado e me perguntou se eu era palestino. Respondi que não, e a turma de jovens começou a gritar para a soldada algo como: "Leave him alone, he is the clone!"

A novela "O Clone" estava sendo reprisada em Israel, e pelo jeito, com algum sucesso. O fato é que essa cena inicial no ônibus permitiu-me entabular uma conversa reveladora com a soldada israelense. Fim do segundo ato.

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Uma Yoga ou 2 Prestígios?

Naquela segunda-feira de outono do ano de 2023, no hemisfério sul, eu queria fazer uma sessão rápida de yoga, coisa de 20 a 30 minutos. Saí do meu apartamento e caminhei até o parque Olhos D'água. Depois da yoga, já bem relaxado, fui ao supermercado comprar o que precisava para o almoço. Eu carregava uma mochila cilíndrica com meu tapete de yoga.

Na fila, atrás de mim, havia uma moça bem apressada com dois Prestígios na mão. O Prestígio é um antigo e famoso chocolate brasileiro feito com massa de coco da Bahia, ralado e revestido de chocolate. Eu mesmo era fã do Prestígio até conhecer outros chocolates de outras nacionalidades — mesmo que o cacau continue sendo, na maioria das vezes, brasileiro ou africano.

Chega a minha vez de pagar, e a moça dos Prestígios batia os pés e pedia passagem. Eu, muito relaxado, observava a cena com interesse. A dose de endorfina que o chocolate daria à moça seria maior ou igual à endorfina pacífica que eu ali já saboreava — uma espécie de nirvana de fila de supermercado.

Nunca se saberá a resposta. Eu apenas desejo à moça todo o prestígio do mundo, e que suas filas sejam curtas, desde que eu possa desfrutar de vez em quando da minha yoga. Imagino que ela vá saborear os chocolates recheados caminhando pelo belo parque onde eu estava se recheando de vento, verde e luz.

Se assim for, a moça teria me dado a definitiva lição do que é um common, um céu de pipiripau: um território onde é possível desfrutar das existências de modo assíncrono e diverso.

quinta-feira, 5 de junho de 2025

Colonização de Resultados

Aprende-se na escola que o Novo Mundo foi colonizado por hordas de europeus, fossem eles bárbaros ou, por outra, conquistadores destinados a catequizar os nativos da América.

Qualquer que tenha sido o início deste processo, ele se dividiria em: colonização de exploração (Brasil, Jamaica, Haiti, Bolívia, etc.) e colonização de povoamento (EUA, Canadá).

A primeira modalidade teve como objetivo principal a extração de riquezas naturais para serem trocadas por ouro e prata, a fim de satisfazer o metalismo do mercantilismo. O segundo tipo, por sua vez, tinha como meta assentar colônias de europeus para estabelecerem uma nova Europa no vasto continente americano (Norte, Centro e Sul).

Contudo, falta um terceiro apoio nesse banquinho de madeira da história, sem o qual ele não para em pé. Havia, e continua havendo, uma terceira modalidade: a colonização de resultados, que não visa estabelecer novos assentamentos humanos, mas sim criar mercados consumidores internos e externos, e obter mão de obra para a máquina econômica colonial.

Pavan Sudek, o grande economista indiano, diria que estes três modelos estão presentes em todos os lugares do Novo Mundo em maiores ou menores proporções.

quarta-feira, 4 de junho de 2025

Do eterno retorno ao eterno reencontro: Nietzsche e a volta à Spinosa

Segue enigmático o conceito do "Eterno Retorno" em Nietzsche, abrindo margem a diversas interpretações, da filosofia à psicanálise, passando pela linguística e pela semiótica. A "vida boa", no sentido spinozano, seria aquela à qual retornaríamos eternamente se pudéssemos.

Seria a prova dos nove de escolhas acertadas; sob um ponto de vista termodinâmico e filosófico, seriam escolhas existenciais que aumentam a potência de agir. Externamente, nos corpos humanos, essa potência se expressa como alegria ou, em seu duplo, a tristeza — esta última surgindo de escolhas erradas ou desencontradas com o padrão emergente dos afetos ativos do ser, segundo Spinoza.

O eterno retorno é a prova dos nove de Nietzsche para aferir a qualidade da vida, assim como o aumento da potência de agir o é para Spinoza. Desse paralelismo, depreende-se que o "eternamente" pode ser entendido como algo profunda e imanentemente enraizado no aqui e agora. Seria a reverberação de um budismo tardio ou o encontro de realidades essenciais aos seres humanos em suas rápidas passagens pelo planeta Terra?

A entropia da tristeza e do desatino pode ser substituída pela neguentropia da alegria e pelo amor fati — o amor ao próprio destino —, que reside na natureza e em sua rede de relações corpóreas e extracorpóreas.

Se, no capitalismo, o tempo é tão linear quanto as formas de exploração da natureza e as promessas de acumulação de riqueza que seduzem corações e mentes, é possível dizer que, sob uma observação menos limitada, o tempo da natureza revela-se circular. Contudo, em Spinoza, como a Res extensa e a Res cogitans têm a mesma origem na natureza, o tempo curador para o nosso planeta tão machucado seria aquele em que unimos o tempo linear com o circular formado um tempo helicoidal.

Nele, seriam possíveis os eternos reencontros do ser com sua máxima potência de ação e sua alegria. Estes reencontros são, literalmente, aproximações com a eternidade do destino de cada ser: seu lugar no universo. A métrica da vida boa não deveria ser apenas responder à pergunta de Nietzsche, mas sim sentir: "você viveria este mesmo momento eternamente?". Se a resposta for sim e a afirmação emergir com alegria, este é o momento do eterno reencontro, no qual se sente novamente o aumento da potência de agir através de afetos ativos que so dependem do ser. Essas ações potentes definem, eternamente, o ser e criam um tempo sustentável para o planeta Terra.

quinta-feira, 13 de março de 2025

De volta ao passado: a desmonte ambiental nos Estados Unidos da América

Engenhosa essa arquitetura narrativa do segundo governo Trump no desmonte das instituições e normativas ambinetais, parte delas nem se relaciona diretamente com a política climática dos EUA apesar de tímida comparada a de outros países. O discurso negacionista climático agora se espalha por todos os lados numa caçada aos ambinetalistas. Mas afinal qual é a presa aqui?

Neste retomada estratégica da industrialização arquitetada pelo Deep State norte-americano, como um processo de curto, médio e longo prazo, Donald Trump seria o ariete a romper resistências econômicas, morais e éticas dos cidadãos norte-americanos. 

Mas este é um filme antigo. A criação da EPA norte-americana é da década de 80, e antes disso reinava o lasse faire da exploração dos recursos naturais e a criação de bolsões de passivo ambiental. A proxima cena desse filme é a busca por áreas pristinas pelos ricos norte-americanos e a degradação da qualidade ambiental para todos, incluindo a classe média.


sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

Os Ecossistemas são Devastados, mas o Clima é o Culpado?

Para aqueles que negam as mudanças climáticas impulsionadas pelas emissões humanas de carbono e para aqueles que acreditam que as atividades humanas são o principal agente da disrupção climática, há um ponto de consenso: o clima está mudando e produzindo efeitos catastróficos em todo o mundo. A posição do primeiro grupo, frequentemente chamado de "Climate Deniers" é argumentar que essas mudanças fazem parte de ciclos naturais que eventualmente se autorregularão, tornando desnecessárias alterações nos atuais padrões de uso de energia e gestão de ecossistemas. 

Esses cientistas frequentemente enfatizam o papel da variabilidade natural, como a atividade solar e os ciclos oceânicos, na condução das mudanças climáticas, minimizando a influência de fatores antropogênicos. Do outro lado, os proponentes das mudanças climáticas antropogênicas, apoiados por uma vasta rede de cientistas alinhados ao Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), defendem ações imediatas para alterar os perfis de emissão de carbono e os processos emissores. No entanto, os fatos relativos ao impacto da variabilidade climática—seja natural ou induzida pelo homem—revelam um aumento nos eventos climáticos extremos e nos custos de reconstrução. 

Minha experiência e os dados hidroclimatológicos históricos das bacias do Rio Pardo, na fronteira entre Minas Gerais e Bahia, e do Rio Corrente, na Bahia, demonstram que, quando os ecossistemas estão significativamente alterados, mesmo pequenas variações climáticas podem ter impactos profundos sobre as populações que habitam esses ecossistemas. Essas pequenas variações podem ser predominantemente naturais (80/20 em relação às emissões humanas de carbono), como argumentam os "Climate Deniers", ou predominantemente antropogênicas (20/80), como afirmam o IPCC e seus cientistas.

O fato é que os impactos de pequenas variações climáticas em ecossistemas altamente modificados estão aumentando globalmente, destacando a necessidade de um consenso sobre a mudança dos padrões de uso do solo e a conservação e preservação dos ecossistemas da Terra. Se, em 2050, a temperatura média da Terra retornar ao patamar de 1 grau Celsius, como sugere um pequeno grupo de cientistas climáticos, essa estabilização encontrará ecossistemas irremediavelmente alterados, anulando os benefícios da estabilização climática.

O ritmo acelerado da mudança no uso do solo e seu impacto sobre as populações e seus territórios representam um consenso pouco explorado que poderia unir cientistas climáticos e ambientais de todas as correntes para colaborar na elaboração de estratégias para a recuperação ecológica do planeta. Enquanto o debate sobre os principais agentes das mudanças climáticas continua, a realidade inegável é que a degradação dos ecossistemas amplifica os impactos das variações climáticas, independentemente de sua origem.



segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025

A Complexidade e o Flamengo: as lições e os erros de Paulo Souza

Paulo Souza, técnico português de futebol, é discípulo do filósofo português Manuel Sergio, criador da Teoria da motricidade humana, Em sua passagem pelo Clube de Regatas do Flamengo, um importante e tradicional clube brasileiro, ele aplica um método complexo, que acaba por aumentar a complexidade deste time de futebol, o que o faz perder o comando do time levando-o à demissão. 

Ela começa a treinar o clube brasileiro em fevereiro de 2022 mas em junho do mesmo ano é demitido. Foram 32 jogos, com 19 vitórias, sete empates e seis derrotas. Paulo Souza neste período usa muito termos como "utilizar a  complexidade" e "entender a complexidade". 

Souza cometeu um erro comum entre aqueles que buscam enfrentar problemas complexos, como o do Flamengo, o time de maior torcida do mundo, com uma parca colheita de títulos. Este erro consiste em confundir teoria, método, análise, sintese, e gestão de sistemas complexos marcados por retroalimentação, auto-organização, emergência de novos padrões, falta de regularidade, e presença de eventos não lineares.

Paulo Souza complicou o que já era complexo. O Flamengo é a complexidade criadora constante de novos padrões emergentes. Podemos apenas ver a superfície dela: o time de maior torcida do mundo com um relativo baixo número de títulos, capaz de lotações históricas no Maracanâ, e passível de perder jogos para clubes de muito menor expressão. O técnico do Flamengo não pode ser um gestor de sistemas mas um gestor de afetos. 

O papel de Paulo Souza era ser um leito para o rio da complexidade flamenguista. Ele tinha que ser o construtor de simplicidades provisórias, capaz de diminuir a complexidades, o caos e as crises do clube sem desestimular os afetos e as paxões que movem o Flamengo. Sua tarefa era faciliatar a emergência de novos padrões a partir da complexidade do time, a qual ele deveria se esforçar para compreender, e que vai além das medidas do campo de futebol.

O que ele, e muito outros técnicos não compreenderam, é que um time de futebol é um organismo, um sistema auto-eco-organizador como define Edgar Morin, pai da teoria da Complexidade, e que se auto-comanda. Cabe ao técnico catalizar este organismo para o aumento da potência do agir coeltivo respeitando os afetos e potências individuais.

Entender a complexidade não é falar sobre ela, mas criar ações a partir dela. Falar da complexidade como observador participante aumenta a complexidade ao invès de diminuí-la. Entender essa complexidade de forma estática e individualistica impede o fluir da inteligência coletiva através dela. 

Podemos dizer que Paulo Souza aplicou de modo descuidado a teoria da complexidade aprendida com o filósofo portugûes Manuel Sergio, criador da Teoria da Motricidade Humana. Muito o criticaram pela aplicação da complexidade ao time de regatas Flamengo mas poucos entenderam aonde estavam seus errose aplicação equivocada de algumas das renovadoras idéias da área dos sistemas sociais complexos.

Mercado Financeiro e os Commons