Direto ao conto: eu pedi um tênis de corrida da new balance para minha parenta, e ela me entrega uma mistura de tenis com sandália coberto por um tecido maleável. Calçar 46 (número 13 na gringa) é garantia de problemas morando no Brasil. A gente tem de esperar alguem ir para os Estados Unidos, para finalmente, e depois de esperar muito, ter novos pares de tênis. A expectativa era tamanha pelos tênis de corrida da NB, que a minha reação ao ver aquele par de tênis alienigenas ao meu desejo foi blase: ah! tá! muito obrigado (mas o que eu faço com isso?)
Sim, eram muito confortáveis mas sem rodeios: eram tenis muito feios, desengonçados, contudomuito a frente do seu tempo (p.s: contarremos no fim dessa história como o patinho feio viveu tempos de cisne). Ganhar um par de tênis sem estrutura superior, uma mistura de sandália de couro com tenis de corrida.
Contudo com o tempo, este tipo de tenis foi ficando mais comum, e percebi que ele poderia ser usado em diferentes situações, casuais ou esportivas. E mais: eram ideais ao esporte que eu fazia na época: o remo. De fato, os tenis de remo não se comparam a beleza deste par de tênis da NB. Certo dia, na academia de remo fui convidado para fazer parte do grupo que iria remar na canoa hawaiana onde não se usam tênis. Tirei os meus NB e os coloquei na beira do deck de ancoragem dos barcos, e fui encontrar me com o grupo.
A canoa hawaiana é um esporte coletivo ao contrário do solitário barco squif do remo. Aspectos como sincronicidade e ritmo são fundamentais para que o esforço individual seja maximizado, e que a remada seja confortável para todos. Vimos o por do sol do meio do lado paranoá. Uma beleza indescritível nesse lago que foi pensado pelo geologo austriaco Cluzou, que estava na expedição de Ferdinand Cruz ao Planalto Central. Ele reconheceu que o vale escavado do rio Paranauá havia sido um mar ancestral, e depois um lago interior, e depois o rio Paranauá (ou Paranoá), reunindo todas as condições para se tornar um lago novamente. Em direção novamente ao deck da academia de remo, ficaria para tras essa bela história da expedição de criação da nova capital, e seu lago Paranoá, de uma beleza única e espelho do belo céu da cidade de Brasília.
Na chegada, há todo um trabalho de equipe para retirar o barco da água. Tarefa realizada, vou para a beira do deck buscar meus tenis, e não os encontro, ou melhor os ecnontro mas não eram mais eles numa súbita compreenção da dualidade, bem colocada no conceito de espaço potencial da compreenção pelo médico e piscanalista inglês Donald Winicott (Plymouth, 7 de abril de 1896 - 28 de janeiro, 1971). Surpreso vejo um belo par de tênis New Balance pousados no meu antigo par de tênis rejeitado e preterido.
Essa sensação de acoplamento de uma imagem nova no objeto antigo é muito estranha. É como se houvesse uma translação entre a compreenção objetiva e subjetiva de um mesmo objeto. Sabe aquela história do patinho feio que encontra sua turma de cisnese se reconhece como tal. A crise de identidade do patinho é apenas uma translação do espaço potencial da compreenção que fico perdida entre a camada objetiva e subjetiva do espaço potencial da compreenção.
Para entender o fenomeno da alteração da percepção é necessário recorrer as diferentes fontes de reflexão sobre a percepção. A translação das percepções subjetivas e objetivas do mesmo objeto, ou seja, do tenis feio para o tenis bonito, o emprego não interessante para o emprego ideal, a velha roupa que valorizamos mais do que a da moda, parece envolver uma alteração de objetivo de nossa parte em relação ao objeto percebido. Thomas Kuhn, fisico e filósofo da ciência norte-americanao, e autor do clássico “A Estrutura das Revoluções Científicas”, de 1962, relaciona a percepção humana aos interesses e objetivos humanos. Se algo me prevalece, me ajuda na realização de algo, percebo essa coisa como boa, bela, necessária. Ou, seja ao objeto são acopladas um conjunto de emoçoes e seus neurotransmissores, que produzem um lugar de destaque para aquele objeto na nossa minha vida.
O fenômeno não fica apenas nos agentes não humanos. Podemos apliocá-lo as relações humanas e as commons, que compartilhamos com muitas pessoas, como a internet, a água, a lingua que falamos.
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