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segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Salvo pelo "Clone"

Eu caminhava tranquilamente por uma feira noturna em Ipanema quando me deparei com o ator Victor Fasano, que ficou famoso com a novela "O Clone". Tomei um susto ao ver o ator, que também se assustou ao perceber nossa leve semelhança, ou talvez devido à altura parecida (ele é mais alto) e ao fato de ser mais forte. Fim do primeiro ato.

Anos depois, entrei em um ônibus em Jerusalém para voltar à fronteira sul, na cidade de Eilat, do lado israelense, e depois para a cidade de Taba, do lado egípcio. Alguns jovens me saudaram na entrada e me chamaram de "Clone": "He is the clone, he is the clone!", diziam, entre risadas. Sentei-me na minha cadeira no meio do ônibus, e uma soldada israelense que estava sentada nas primeiras cadeiras veio sentar-se ao meu lado e me perguntou se eu era palestino. Respondi que não, e a turma de jovens começou a gritar para a soldada algo como: "Leave him alone, he is the clone!"

A novela "O Clone" estava sendo reprisada em Israel, e pelo jeito, com algum sucesso. O fato é que essa cena inicial no ônibus permitiu-me entabular uma conversa reveladora com a soldada israelense. Fim do segundo ato.

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Uma Yoga ou 2 Prestígios?

Naquela segunda-feira de outono do ano de 2023, no hemisfério sul, eu queria fazer uma sessão rápida de yoga, coisa de 20 a 30 minutos. Saí do meu apartamento e caminhei até o parque Olhos D'água. Depois da yoga, já bem relaxado, fui ao supermercado comprar o que precisava para o almoço. Eu carregava uma mochila cilíndrica com meu tapete de yoga.

Na fila, atrás de mim, havia uma moça bem apressada com dois Prestígios na mão. O Prestígio é um antigo e famoso chocolate brasileiro feito com massa de coco da Bahia, ralado e revestido de chocolate. Eu mesmo era fã do Prestígio até conhecer outros chocolates de outras nacionalidades — mesmo que o cacau continue sendo, na maioria das vezes, brasileiro ou africano.

Chega a minha vez de pagar, e a moça dos Prestígios batia os pés e pedia passagem. Eu, muito relaxado, observava a cena com interesse. A dose de endorfina que o chocolate daria à moça seria maior ou igual à endorfina pacífica que eu ali já saboreava — uma espécie de nirvana de fila de supermercado.

Nunca se saberá a resposta. Eu apenas desejo à moça todo o prestígio do mundo, e que suas filas sejam curtas, desde que eu possa desfrutar de vez em quando da minha yoga. Imagino que ela vá saborear os chocolates recheados caminhando pelo belo parque onde eu estava se recheando de vento, verde e luz.

Se assim for, a moça teria me dado a definitiva lição do que é um common, um céu de pipiripau: um território onde é possível desfrutar das existências de modo assíncrono e diverso.

quinta-feira, 5 de junho de 2025

Colonização de Resultados

Aprende-se na escola que o Novo Mundo foi colonizado por hordas de europeus, fossem eles bárbaros ou, por outra, conquistadores destinados a catequizar os nativos da América.

Qualquer que tenha sido o início deste processo, ele se dividiria em: colonização de exploração (Brasil, Jamaica, Haiti, Bolívia, etc.) e colonização de povoamento (EUA, Canadá).

A primeira modalidade teve como objetivo principal a extração de riquezas naturais para serem trocadas por ouro e prata, a fim de satisfazer o metalismo do mercantilismo. O segundo tipo, por sua vez, tinha como meta assentar colônias de europeus para estabelecerem uma nova Europa no vasto continente americano (Norte, Centro e Sul).

Contudo, falta um terceiro apoio nesse banquinho de madeira da história, sem o qual ele não para em pé. Havia, e continua havendo, uma terceira modalidade: a colonização de resultados, que não visa estabelecer novos assentamentos humanos, mas sim criar mercados consumidores internos e externos, e obter mão de obra para a máquina econômica colonial.

Pavan Sudek, o grande economista indiano, diria que estes três modelos estão presentes em todos os lugares do Novo Mundo em maiores ou menores proporções.

quarta-feira, 4 de junho de 2025

Do eterno retorno ao eterno reencontro: Nietzsche e a volta à Spinosa

Segue enigmático o conceito do "Eterno Retorno" em Nietzsche, abrindo margem a diversas interpretações, da filosofia à psicanálise, passando pela linguística e pela semiótica. A "vida boa", no sentido spinozano, seria aquela à qual retornaríamos eternamente se pudéssemos.

Seria a prova dos nove de escolhas acertadas; sob um ponto de vista termodinâmico e filosófico, seriam escolhas existenciais que aumentam a potência de agir. Externamente, nos corpos humanos, essa potência se expressa como alegria ou, em seu duplo, a tristeza — esta última surgindo de escolhas erradas ou desencontradas com o padrão emergente dos afetos ativos do ser, segundo Spinoza.

O eterno retorno é a prova dos nove de Nietzsche para aferir a qualidade da vida, assim como o aumento da potência de agir o é para Spinoza. Desse paralelismo, depreende-se que o "eternamente" pode ser entendido como algo profunda e imanentemente enraizado no aqui e agora. Seria a reverberação de um budismo tardio ou o encontro de realidades essenciais aos seres humanos em suas rápidas passagens pelo planeta Terra?

A entropia da tristeza e do desatino pode ser substituída pela neguentropia da alegria e pelo amor fati — o amor ao próprio destino —, que reside na natureza e em sua rede de relações corpóreas e extracorpóreas.

Se, no capitalismo, o tempo é tão linear quanto as formas de exploração da natureza e as promessas de acumulação de riqueza que seduzem corações e mentes, é possível dizer que, sob uma observação menos limitada, o tempo da natureza revela-se circular. Contudo, em Spinoza, como a Res extensa e a Res cogitans têm a mesma origem na natureza, o tempo curador para o nosso planeta tão machucado seria aquele em que unimos o tempo linear com o circular formado um tempo helicoidal.

Nele, seriam possíveis os eternos reencontros do ser com sua máxima potência de ação e sua alegria. Estes reencontros são, literalmente, aproximações com a eternidade do destino de cada ser: seu lugar no universo. A métrica da vida boa não deveria ser apenas responder à pergunta de Nietzsche, mas sim sentir: "você viveria este mesmo momento eternamente?". Se a resposta for sim e a afirmação emergir com alegria, este é o momento do eterno reencontro, no qual se sente novamente o aumento da potência de agir através de afetos ativos que so dependem do ser. Essas ações potentes definem, eternamente, o ser e criam um tempo sustentável para o planeta Terra.

quinta-feira, 13 de março de 2025

De volta ao passado: a desmonte ambiental nos Estados Unidos da América

Engenhosa essa arquitetura narrativa do segundo governo Trump no desmonte das instituições e normativas ambinetais, parte delas nem se relaciona diretamente com a política climática dos EUA apesar de tímida comparada a de outros países. O discurso negacionista climático agora se espalha por todos os lados numa caçada aos ambinetalistas. Mas afinal qual é a presa aqui?

Neste retomada estratégica da industrialização arquitetada pelo Deep State norte-americano, como um processo de curto, médio e longo prazo, Donald Trump seria o ariete a romper resistências econômicas, morais e éticas dos cidadãos norte-americanos. 

Mas este é um filme antigo. A criação da EPA norte-americana é da década de 80, e antes disso reinava o lasse faire da exploração dos recursos naturais e a criação de bolsões de passivo ambiental. A proxima cena desse filme é a busca por áreas pristinas pelos ricos norte-americanos e a degradação da qualidade ambiental para todos, incluindo a classe média.


sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

Os Ecossistemas são Devastados, mas o Clima é o Culpado?

Para aqueles que negam as mudanças climáticas impulsionadas pelas emissões humanas de carbono e para aqueles que acreditam que as atividades humanas são o principal agente da disrupção climática, há um ponto de consenso: o clima está mudando e produzindo efeitos catastróficos em todo o mundo. A posição do primeiro grupo, frequentemente chamado de "Climate Deniers" é argumentar que essas mudanças fazem parte de ciclos naturais que eventualmente se autorregularão, tornando desnecessárias alterações nos atuais padrões de uso de energia e gestão de ecossistemas. 

Esses cientistas frequentemente enfatizam o papel da variabilidade natural, como a atividade solar e os ciclos oceânicos, na condução das mudanças climáticas, minimizando a influência de fatores antropogênicos. Do outro lado, os proponentes das mudanças climáticas antropogênicas, apoiados por uma vasta rede de cientistas alinhados ao Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), defendem ações imediatas para alterar os perfis de emissão de carbono e os processos emissores. No entanto, os fatos relativos ao impacto da variabilidade climática—seja natural ou induzida pelo homem—revelam um aumento nos eventos climáticos extremos e nos custos de reconstrução. 

Minha experiência e os dados hidroclimatológicos históricos das bacias do Rio Pardo, na fronteira entre Minas Gerais e Bahia, e do Rio Corrente, na Bahia, demonstram que, quando os ecossistemas estão significativamente alterados, mesmo pequenas variações climáticas podem ter impactos profundos sobre as populações que habitam esses ecossistemas. Essas pequenas variações podem ser predominantemente naturais (80/20 em relação às emissões humanas de carbono), como argumentam os "Climate Deniers", ou predominantemente antropogênicas (20/80), como afirmam o IPCC e seus cientistas.

O fato é que os impactos de pequenas variações climáticas em ecossistemas altamente modificados estão aumentando globalmente, destacando a necessidade de um consenso sobre a mudança dos padrões de uso do solo e a conservação e preservação dos ecossistemas da Terra. Se, em 2050, a temperatura média da Terra retornar ao patamar de 1 grau Celsius, como sugere um pequeno grupo de cientistas climáticos, essa estabilização encontrará ecossistemas irremediavelmente alterados, anulando os benefícios da estabilização climática.

O ritmo acelerado da mudança no uso do solo e seu impacto sobre as populações e seus territórios representam um consenso pouco explorado que poderia unir cientistas climáticos e ambientais de todas as correntes para colaborar na elaboração de estratégias para a recuperação ecológica do planeta. Enquanto o debate sobre os principais agentes das mudanças climáticas continua, a realidade inegável é que a degradação dos ecossistemas amplifica os impactos das variações climáticas, independentemente de sua origem.



segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025

A Complexidade e o Flamengo: as lições e os erros de Paulo Souza

Paulo Souza, técnico português de futebol, é discípulo do filósofo português Manuel Sergio, criador da Teoria da motricidade humana, Em sua passagem pelo Clube de Regatas do Flamengo, um importante e tradicional clube brasileiro, ele aplica um método complexo, que acaba por aumentar a complexidade deste time de futebol, o que o faz perder o comando do time levando-o à demissão. 

Ela começa a treinar o clube brasileiro em fevereiro de 2022 mas em junho do mesmo ano é demitido. Foram 32 jogos, com 19 vitórias, sete empates e seis derrotas. Paulo Souza neste período usa muito termos como "utilizar a  complexidade" e "entender a complexidade". 

Souza cometeu um erro comum entre aqueles que buscam enfrentar problemas complexos, como o do Flamengo, o time de maior torcida do mundo, com uma parca colheita de títulos. Este erro consiste em confundir teoria, método, análise, sintese, e gestão de sistemas complexos marcados por retroalimentação, auto-organização, emergência de novos padrões, falta de regularidade, e presença de eventos não lineares.

Paulo Souza complicou o que já era complexo. O Flamengo é a complexidade criadora constante de novos padrões emergentes. Podemos apenas ver a superfície dela: o time de maior torcida do mundo com um relativo baixo número de títulos, capaz de lotações históricas no Maracanâ, e passível de perder jogos para clubes de muito menor expressão. O técnico do Flamengo não pode ser um gestor de sistemas mas um gestor de afetos. 

O papel de Paulo Souza era ser um leito para o rio da complexidade flamenguista. Ele tinha que ser o construtor de simplicidades provisórias, capaz de diminuir a complexidades, o caos e as crises do clube sem desestimular os afetos e as paxões que movem o Flamengo. Sua tarefa era faciliatar a emergência de novos padrões a partir da complexidade do time, a qual ele deveria se esforçar para compreender, e que vai além das medidas do campo de futebol.

O que ele, e muito outros técnicos não compreenderam, é que um time de futebol é um organismo, um sistema auto-eco-organizador como define Edgar Morin, pai da teoria da Complexidade, e que se auto-comanda. Cabe ao técnico catalizar este organismo para o aumento da potência do agir coeltivo respeitando os afetos e potências individuais.

Entender a complexidade não é falar sobre ela, mas criar ações a partir dela. Falar da complexidade como observador participante aumenta a complexidade ao invès de diminuí-la. Entender essa complexidade de forma estática e individualistica impede o fluir da inteligência coletiva através dela. 

Podemos dizer que Paulo Souza aplicou de modo descuidado a teoria da complexidade aprendida com o filósofo portugûes Manuel Sergio, criador da Teoria da Motricidade Humana. Muito o criticaram pela aplicação da complexidade ao time de regatas Flamengo mas poucos entenderam aonde estavam seus errose aplicação equivocada de algumas das renovadoras idéias da área dos sistemas sociais complexos.

domingo, 22 de dezembro de 2024

IA mas pode me chamar de DA

Vou ficar aqui sentado, ouvindo Bill Evans e Chet Baker, enquanto as notícias sobre erros da IA se multiplicam em diversos lugares do mundo, em diferentes áreas, como medicina e bolsa de valores. De solução futurista para tudo, a inteligência artificial (IA) — um nome mal colocado — mostra seu lado deletério. A inteligência é uma capacidade humana complexa e analógica, não computável, capaz de identificar nuances, contradições e incertezas em situações reais, sem que essas informações necessariamente estejam armazenadas na memória. Está ligada ao futuro e à construção de cenários de decisão. Afinal, o que é a IA?

Decisões Artificiais (DAs), baseadas em algoritmos, foram equivocadamente batizadas de Inteligência Artificial. As DAs são sistemas computacionais e informacionais que se abastecem de séries históricas de eventos padronizáveis para serem utilizados em tomadas de decisão. Elas fazem apostas estatísticas para prever o próximo movimento baseado no passado, tentando adaptá-lo ao futuro. Em matemática, dizemos que uma tendência em um conjunto de dados segue a tangente à curva que melhor representa o comportamento desses dados. Infelizmente, ou felizmente, a realidade é muito mais complexa do que curvas lineares de dados.

O truque está na velocidade sobre-humana com que uma solução simples é encontrada para um problema complexo — mas que frequentemente está errada. Como "tempo é dinheiro" na economia neoclássica, não se pode perder tempo até que uma avaliação mais criteriosa seja feita. Assim, a velocidade se torna a prova dos nove: o leopardo é melhor que o leão porque é mais rápido.

Dessa forma, a IA deve ser renomeada como DA, pois se baseia em imensas simplificações para resolver problemas complexos, que frequentemente não são triviais nem padronizáveis. Os erros, como os observados no ChatGPT, que utiliza seus usuários para treinamento, podem parecer hilários e jocosos inicialmente, mas, com o tempo, podem se tornar graves, especialmente quando aplicados a questões como a crise ambiental.

É fascinante observar como uma solução errada, oferecida em milésimos de segundo, pode ser chamada de "inteligente". Enquanto isso, no mundo real, os problemas humanos e planetários se amplificam. Quando usamos DAs para enfrentar os problemas reais da sociedade, há o risco de agravarmos as crises. Frente aos erros das DAs, os humanos que as criaram podem argumentar que estamos apenas aperfeiçoando essas ferramentas, ou, em termos schumpeterianos, engajados em um processo de "destruição criativa".

Ainda não percebemos que fazemos parte de um grande experimento global. Quando as sementes transgênicas foram lançadas no mercado, sem benefícios claros para os consumidores, algumas vozes denunciaram que aquilo era um laboratório a céu aberto, conduzido sem o consentimento das pessoas. Com as DAs, treinamos as ferramentas através de decisões que impactam a vida das pessoas, muitas vezes sem que elas saibam. Isso é ainda mais sério do que o caso do hackeamento de dados eleitorais norte-americanos pela Cambridge Analytica durante a eleição de Donald Trump.

Problemas complexos não têm soluções simples, especialmente os problemas ambientais. Participei de dois cursos oferecidos por uma agência de cooperação europeia sobre a aplicação de uma ferramenta de DA, a análise multiagentes, a um problema ambiental: o desmatamento. Durante um dos cursos, solicitei ao engenheiro europeu que mostrasse as linhas de programação do módulo de percepção humana do algoritmo usado para modelar decisões dos agentes envolvidos no desmatamento de uma região da Amazônia.

O módulo continha apenas três linhas de código. Tendo trabalhado com percepção ambiental no meu mestrado, sabia que, desde Aristóteles até Carl Jung, a percepção humana é considerada um dos maiores desafios na compreensão da psique e dos processos de decisão. Mas no algoritmo em questão, três linhas de código eram consideradas suficientes. Só que não: eu havia visitado a área em estudo, e o desmatamento previsto para dois anos no futuro já estava acontecendo.

O que precisamos compreender é que há outro tipo de inteligência humana por trás das DAs, coordenando o trabalho dos que constroem e treinam os algoritmos: a inteligência híbrida (IH). Exercida por algumas poucas empresas globais, a IH captura dados e informações em massa para criar módulos de resolução de problemas, muitas vezes sem o consentimento explícito dos usuários. Cria-se um ambiente que reforça os poderes "sobre-humanos" das DAs, atraindo milhões de pessoas em busca de soluções rápidas e baratas para seus problemas.

Mas, afinal, que magnetismo é esse que as DAs exercem sobre os humanos? Essa é a segunda geração das DAs. A primeira foi o "surfar na rede", a "navegação grátis", que gerou enormes bancos de dados sobre comportamentos dos consumidores e seus conteúdos, vendidos para empresas. A segunda geração vai mais fundo: armazena processos de decisão e vende informações sensíveis sobre padrões sociais para governos e blocos econômicos. Como as pessoas decidem? Quais padrões estão por trás das perguntas que fazem? Tudo isso é fruto de inteligências humanas, que não são remuneradas por esse uso.

David Ricardo, economista do século XIX, se reviraria no túmulo ao saber disso. Para ele, o valor de um produto depende dos insumos usados em sua produção. Já as DAs perpetuam o passado ao tentar projetá-lo como se fosse o futuro, criando uma "santificação científica" que alimenta falsos profetas.

O que as DAs podem fazer de útil para resolver problemas humanos? Primeiro, é preciso evitar seu uso para prever eventos futuros não lineares e complexos. Segundo, identificar onde as DAs podem trazer riscos à sociedade. Com controle social, podem organizar dados padronizados de utilidade pública, como medicina virtual, tráfego, tarefas domésticas e controle de acidentes, liberando os humanos para atividades criativas.

É essencial, porém, regulamentar o uso das DAs. Profissionais das universidades, que estudam a inteligência humana em suas várias expressões, podem ajudar a criar um aparato normativo que fortaleça a justiça social, a democracia e a liberdade de expressão.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

Capoeira: Cultura de Corpo

Seria possível uma cultura fora do corpo, ou dos corpos? Algo externo, que, através da linguagem, produziria conteúdos automatizados, os quais influenciariam corpos e mentes sem ter nada a ver com eles? Mesmo em mecanismos de decisão artificial, baseados em algoritmos (DA), erroneamente chamados de inteligência artificial (IA), a presença humana, antes, durante e depois, assegura defini-los como máquinas robóticas de geração e transmissão de informações sob orientação humana.

O desenvolvimento da cultura, por simetria, repete os sistemas complexos ancestrais, marcados por retroalimentação, criação de padrões emergentes, seleção ambiental e evolução, só que numa velocidade de tempo muito maior e direcionada à cultura. A evolução cultural se dobra e passa a atuar como seleção socioambiental, onde se combinam a seleção natural e a cultural, ao lado de aspectos importantes da reprodução sexual, que aumentam o grau de variabilidade, no caso dos seres humanos.

A gênese da cultura da capoeira se plasma a partir do imenso fluxo migratório forçado pela indústria da escravidão no século XVI, no qual entre 4 a 5 milhões de pessoas cruzaram o oceano Atlântico. Nas terras brasileiras, vão encontrar, além dos colonizadores portugueses, em menor número, um imenso contingente de populações nativas locais. Durante quatro séculos de imensa troca gênica e cultural, vai sendo gestada a arte da Capoeira, uma mistura de jogo, dança, luta e ritual, uma amalgama entre a história cronológica e a impressa nos corpos do povo novo, os brasileiros.

Na Capoeira, é possível ver nos saltos, negaças, fintas, defesas e golpes, ao som de variados instrumentos musicais, os produtos da evolução cultural a partir da evolução biológica, de tal modo abraçados, que podemos dizer que a Capoeira modifica o cérebro e o corpo, como acreditam neurocientistas como Sidarta Ribeiro (que é também capoeirista), e o cérebro modificado transforma a capoeira, que modifica novamente o corpo em um jogo que envolve plasticidade cerebral, condicionamento corporal e criatividade cultural de tal forma entrelaçadas, que é correto dizer que a Capoeira é uma cultura de corpo.

sexta-feira, 18 de outubro de 2024

Economia Verde e Cidades Esponjas

O movimento de cidades amigas das águas, ou simplesmente cidades esponjas, tem em Seul, capital da Coreia do Sul, um marco importante. Ao desenterrar o rio Cheonggyecheon em 1999, em uma das principais avenidas da cidade, Seul colhe frutos já em 2003 com mais de 400 hectares de áreas verdes, um canal de 80 metros de largura em uma extensão de 8 km, que se transformou em uma área de lazer, e a redução de 3,6 graus Celsius na temperatura média em relação ao resto da cidade.

Do mesmo modo, outras cidades que tiveram rápida expansão do tecido urbano hoje repensam como melhorar os índices de qualidade de vida e saúde ambiental dessas áreas metropolitanas. São Paulo possui diversos rios emparedados em córregos delimitados por estruturas de concreto ou mesmo enterrados. Mas essa rede hídrica, nas estações chuvosas, faz-se presente novamente nas enchentes, alagamentos e entupimentos de redes de esgoto e pluviais.

Ailton Krenak, pensador indígena brasileiro, mostra que os rios são muito importantes nas aglomerações populacionais dos povos tradicionais. As vilas e aldeias surgem perto dos rios e ali estabelecem seu metabolismo social e ecológico. As cidades forjadas pela cultura ocidental buscam estabelecer uma relação de hierarquia onde o rio e a natureza têm um sentido utilitário.

Mas quem está liderando este jogo do conceito de cidade esponja é a China, um dos países com mais graves problemas de gestão hídrica urbana [1]. O padrão acelerado de desenvolvimento das cidades chinesas se inicia na década de 1970. Os planos de desenvolvimento regionais chineses consideram os problemas de governança e gestão das águas urbanas de suma importância, dado seu potencial de disrupção. Em 2014, o governo nacional adota a estratégia dos projetos de cidades esponjas, e uma intensa troca e intercâmbio de ideias e tecnologias começa a se desenvolver com países europeus que já implementavam as NBS (soluções baseadas na natureza) e um planejamento adaptativo para sua gestão [2].

Eventos extremos com graves consequências urbanas têm acontecido em importantes cidades chinesas: Pequim (2012), Ningbo (2013), Guangzhou (2015), Wuhan (2016), Shenzhen (2019) e Chongqing (2020). O programa chinês de cidades esponjas se iniciou em 2013 e foi adotado por 30 cidades para desenvolver soluções em segurança contra enchentes, purificação de águas pluviais e armazenamento hídrico para usos futuros [2].

As iniciativas de cidades esponjas se multiplicam, mas há preocupação em como renovar os conceitos de infraestrutura e projeto urbano para acompanhar essas inovações. Além disso, é necessário criar esquemas financeiros e aportes tecnológicos específicos. Uma rede de políticas públicas deve acompanhar o estabelecimento de cidades esponjas, e isso leva tempo [1].

Do lado da tecnologia, a China está se engajando em redes internacionais de pesquisas neste tema, como a parceria hídrica entre a Europa e a China (Chinese European Water Partnership, CEWP) [1]. A criação de inovações na China e através de parcerias internacionais pode mudar a forma como a China enfrenta os problemas da água urbana.

De início, serão necessárias inovações de compartilhamento de dados (crowdsourced data, CSD), em especial o monitoramento participativo, através do uso de celulares, que irá conviver e se relacionar com as formas tradicionais de geração de dados hídricos [1]. Um exemplo é o aplicativo de celulares Crowd Water App (CWApp), da Agência de Águas da Suíça, que é um instrumento de ciência cidadã para facilitar a participação das pessoas na gestão hídrica de suas cidades.

Em segundo lugar, o compartilhamento de dados pode se dar através da tecnologia de internet das coisas (IoT) e contribuir na avaliação em tempo real dos sistemas de drenagem urbana através de mecanismos de monitoramento, por exemplo, instalados em bombas hidráulicas. Contudo, ainda é complicado usar dados hidrológicos de modo tradicional e dados gerados por celulares. São dados que envolvem tipos diferentes de erros metodológicos, e ainda seria necessário desenvolver uma plataforma de assimilação de dados [1]. Estas e outras inovações podem gerar novos produtos e serviços.

Os desafios atuais dizem respeito à incerteza presente no futuro das condições hidroclimáticas ligadas às projeções dos cenários climáticos, e às complicações para a adaptação da infraestrutura urbana dentro de um tempo de vida operacional [2]. Outro desafio é a forma como estas soluções serão financiadas e negociadas com gestões urbanas, do meio ambiente e do clima. O conceito de redes de políticas públicas e de operadores políticos em rede pode ser uma opção para o florescimento das cidades esponjas [3].

Referências:

[1]ZEVENBERGEN, Chris; FU, Dafang; PATHIRANA, Assela. Transitioning to sponge cities: Challenges and opportunities to address urban water problems in China. Water, v. 10, n. 9, p. 1230, 2018.

[2] QI, Yunfei et al. Addressing challenges of urban water management in Chinese sponge cities via nature-based solutions. Water, v. 12, n. 10, p. 2788, 2020. 

[3] ABERS, Rebeca Neaera; KECK, Margaret E. Autoridade prática: ação criativa e mudança institucional na política das águas do Brasil. In: Autoridade prática: ação criativa e mudança institucional na política das águas do Brasil. 2017. p. 331-331.

quinta-feira, 3 de outubro de 2024

Plataforma Mundial de Compras Públicas Sustentáveis

Uma Plataforma Mundial de Compras Publicas Sustentáveis (PMCPS) seria regulada pela OMC, e uma de suas caracteristicas seria o fim do imposto a circulação sobre produtos e insumos sustentáveis no mercado internacional para todos os países que possuem sistemas nacionais des compras públicas sustentáveis. Para isso seria criado um sistema de certificação de garantia de sistemas de produção sustentável internacional (CG-SPS) onde os impactos destes sistemas seriam categorizados, por exemplo as emissões de carbono geradas e os projetos locais de mitigação e adaptação. 

No Brasil, estima-se que de 15 a 25% do PIB é direcionado a compras públicas (public procurement). Em escala global, o PIB está na ordem dos 100 trilhões de dolares, e se projetarmos as comprars públicas governamentais em 10% estamos falando de um mercado de 10 trilhões de dolares anuais direcionados a produtos sustentáveis. Para participar deste mercado as empresas inovadoras devem ser descarbonizar seus sistemas de produção, e ao mesmo tempo diminuir outros impactos socio-ambientais. A CG-SPS organizaria um fundo internacional para financiar parcialmente essa transição com base em uma taxa anual a ser paga por cada país participante com base em suas emissões de carbono nas cadeias produtivas. Esse fundo absteceria programas de pesquisa e desenvolvimento internacionais administrado pela plataforma CG-SPS. 

O projeto piloto nacional de uma plataforma com esse delineamento foi elaborado por uma equipe de professores e pesquisadores do Centro de Desenvolvimento sustentável da Universidade de Brasília a pedido do Ministério do meio Ambiente. Pode-se também evoluir para a criação de uma plataforma de compras privada de produtos sustentáveis, que contribuem para que a temperatura do planeta terra se estabilize em 1.5 graus centigrados de aumento desde a era industrial. 

quarta-feira, 2 de outubro de 2024

Sobre OVNIS

Eu não sei se os objetos voadores não indentificáveis existem, mas eu poderia dizer que sempre que a mídia norte-americana ativa esse assunto, inclusive trazendo recentemente a fala de um ex-presidente o Barach Obama para dizer q    ue ele não pode dizer nada sobre este assunto sabemos que o governo está nuscando um aumento no orçcamento militar e especial. Geralmente tal fenômeno casado que aparece dos céus dos principais telejornais acontece proximo as elições majoritárias dos EUA. Mas isso ainda é uma hipottese a ser confirmada para estabelecer uma explicação causal mais refinada.

Voltando aos OVINS e utilizando a fórmula socratica de pensamento, partindo do ponto que eles existem, pergunto-me que se estes objetos são pilotados por seres biológicos portadores de vida, eles crewsceram e foram formados em algum sistema planetário. Se nestes sistema tudo esta bem, e seus habitantes felizes e em harmônica com oq ue tem diante da vastidão do universo, enviar custosas maquinas ao espaço para a exploração do mesmo exige muita tecnologia e energia. Se eles chegaram a este prodigio sem destruir e utilizar os recursos de seus sistema planetário, mantendo como foi mencionado a homeostase e a harmonia, podemos dizer que os pilotos vem em missão de paz e pela solidariedade cósmica. 

A outra opção, é aquele de que estão em busca de outro sistema planetário dado que para desenvolver a tecnologia e a energia de propulsão de suas naves eles tiveram que exaurir os recursos de seus sistema planetário. Logo, os OVINS são buscadores de novas casa, e neste sentido não vem em missão de paz, e pela harmonia cósmica. Contudo, se assim for não devemos nos preocupar dado o estado deficitário, desarmonioso, e faltante de nosso sistema planetário e suas diversas erosões, e desequilibrios causados, como diz o fdamoso neurocientista brasileiro, Sidhart Ribeiro, por 7,9 bilhões de macacos que são movidos pela busca do dinheiro, segurança e amor.


sexta-feira, 20 de setembro de 2024

Quando o curto prazo da Economia encontra o da Natureza

Quando o curtíssimo prazo se torna o curto-prazismo dos países de capitalismo dependente, a economia baseada em commodities é a primeira que sofre com a intensificação das flutuações climáticas. Naturais ou impulsionadas pelas emissões de carbono das atividades humanas, sabe-se que pequenas alterações em sistemas complexos costumam sofrer processos de retroalimentação. A oscilação climática pequena pode gerar consideráveis alterações nos microclimas. Quando este processo encontra territórios de baixa resiliência, o curto prazo da economia encontra geralmente o disruptivo curto prazo do meio ambiente. Geralmente, quem sai perdendo são as estruturas humanas.

Do ponto de vista energético, seja por processo natural surgido do encontro de ciclos planetários que se retroalimentam, seja pelo acréscimo de carbono e calor gerado pelos sistemas de produção humana, o excesso de energia na atmosfera vai buscar um novo caminho de equilíbrio. Os oceanos geralmente são o repositório onde esse excesso vai encontrar seu meio de dissolução, contudo, com a alteração de porções pequenas destes oceanos receptores. Estas pequenas alterações alteram regimes de ventos e ondas. Mesmo pequenas, vão afetar o microclima dos litorais nos continentes.

Processos humanos e naturais com comportamento linear sofrem grandes disturbios com pequenas alterações não lineares no clima através de dois mecanismos: os ciclos de retroalimentação, e a geração de novos padrões emergentes.


terça-feira, 17 de setembro de 2024

Tem algo novo no futuro

Nosso personagerm de ficção sai do metro em São Paulo, e caminha, meio que impulsionado pela multidão. A chuva será negra? As queimadas atingiram o sitio de meu tio em Ribeirão Preto? O ambiente antes controlado e domesticado do mundo urbano é invadido por notícias e fumaças de oscilações climáticas, naturais ou aumentadas pela emissões de carbono das atividades humanas, antes despercebidas ou diluídas no tempo. 

Nosso personagem carrega uma maleta com instrumentos de medição da saúde. Vive disso a mais de 10 anos: enfermeiro de computadores. O caso atual é no mainframe (computador geral) de um banco na avenida Paulista. Rumores de lavagem do dinheiro sujo chegam a sujar a reputação de alguns bancos? "Eu só faço o meu trabalho não me importo com os dados, de onde vem". "Sou pago para fazer com que o fluxo continue". "Depois eu volto para minha casa" em algum lugar onde o trem o deixa sem hora marcada. 

Nestes dias que correm ligeiro, é grande a demanda de seus serviços. Hackers estão em todos os cantos, escondidos em todas as redes sociais. É preciso proteger os sistemas de informação dos sistemas de informação dos inimigos. Nosso personagem não sabe com certeza quem é amigo ou inimigo. "Este final de semana tem jogo do Corintias". Ele respira um pouco aliviado apesar da tosse com esse ar cheio de partículas vindas das queimadas ao redor da cidade, mesmo que seu time do coração não vá lá bem das pernas. Será que tantos incêndios florestais não são propositais? Ele meneia a cabeça e aperta o passo de volta ao metro. Ele tambem ajuda os vizinhos e seus filhos, nem sempre cobra quando a coisa é rápida. Na associação de moradores, ele colocou a internet. Aumentou a presença dos moradores nas reuniões e atividades da associação.

Ele notou que a internet melhorou as coisas de um jeito não muito claro. Há mais universitários é verdade mesmo que desempregados, ou no Uber. Ha mais cor nas faces, mais leitura nos olhos. Há uma mudança de sensibilidade, seja lá como for apesar da tristeza. É tudo ainda imperceptível mas há uma mudança de consciência. É como se a rede social física dos vizinhos, os membros da associação e comerciantes locais fosse ativada pelo fluxo de dados das nuvens. 

Outro dia, nosso personagem ouviu um jovem explicando para o outro o papel de Dostoiewisk para a luta de libertação de um povo que ele esqueceu qual era o nome. A música do rap ganha mais adeptos dentro e fora da favela. A juventude ao redor da casa dele parece mais consciente com mais oportunidades por dentro do que por fora, ainda que as redes sociais nas nuvens da blogosfera proliferem fórmulas de se tornar um milionário, fofocas, conflitos entre influencers, e novos ídolos com os pés de barro.

Mercado Financeiro e os Commons