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terça-feira, 15 de novembro de 2022

A dinâmica antidialógica do twitter

Hegel, filósofo alemão do século XIX resumiu o movimento históricos das ideias em 3 estágios: primeiramente, a tese, seguida da antítese, e finalmente o terceira fase, a síntese, ou seja, o apice do ciclo epistêmico. Seja 140 caracteres ou a nova versão de 280 caracteres, a apresentação das mensagens e idéias nessa forma sintética propicia movimentos de reflexão e antagonismos em formatos igualmente sintéticos que desembocam em sínteses cada vez mais reduzidas em escopos, para dar conta da complexidade das problemáticas da realidade.

Uma tal estrutura normativa, gerará bolhas de portadores de domínios no twitter, que encontram pouca ou nenhuma reação dialética ás suas ideias fortalecendo entendimentos errôneos, e desprovidos de verdade factual, dando origem as chamada fake-news, que podem ser de dois tipos: deliberadas, feitas para atingir determinados objetivos cognitivos, ou históricos, ou seja produtos de uma equação epistemológica linear e não dialética, protegida de contraditórios. 

O aumento do número de caracteres nas mensagens, ou a postagem de textos completos aumenta a possibilidade de criticas e contraditórios, ou seja, estimula um movimento epistêmico mais complexo, e dialógico, uma vez que pode ser composto de varias dialéticas em movimento no mesmo twitter. Contudo, enquanto a circulação de mensagens for escolhido pelo portador da conta de acordo com a escolha de seguidores e seguidos teremos a logica das bolhas cognitivas. 

De acordo com o conteúdo das mensagens, palavras-chaves tornarem-se guias para o recebimento de novas mensagens, teremos mais debate, e reflexão em redes sociais como o twitter. Neste sentido, o conceito fundador das redes sociais (RS) de relacionamento entre os titulares das contas com o tempo será alterado para redes de informação e conhecimento (RIC) onde o relacionamento se dá entre palavras-chave e não mais entre os titulares das contas.

Por exemplo, Hayec um dos país do liberalismo austríaco ao ser citato em um tweet atrairia para  perto de si não apenas palavras-chaves de confirmação, mas de confrontação através de palavras-chave, que contrapoem e abrem a reflexão sobre os conceitos tratados.


domingo, 16 de outubro de 2022

A democracia é um commons

A vida política brasileira desde a reeleição de Dilma Rosseuf em 2016 parece que entrou em um modo de retroalimentação positiva, conhecida entre os usuários da teoria dos sistemas como "efeito bola de neve". Os agentes políticos ao invés de recorrerem aos mecanismos de controles e salvaguardas democráticas exercidas por instituições designadas em lei partem para uma queda de braço explicita, onde os julgamentos são feitos a queima-roupa e divulgados na imprensa. Para os eleitores parece o que é: o sistema político gira em falso, perde-se as regras entre adversários, agora inimigos em guerra de extermínio. 

A sensação é de vertigem, como se uma  avalanche fosse eminente. E veio o impeachment,  a operação lava-jata ganha super-poderes, o ex-presidente Lula é preso, mais prisões de empresários, paralisação de grandes empresas, desemprego escalando uma situação econômica agravada pela diminuição dos preços das comodities agrícolas e minerais. Quando isso acontece é geralmente acompanhada de instabilidade política nos países da América Latina, que tem nas comodities sua principal pauta de exportação.

Salto no tempo. Antes do primeiro turno da eleição de 2022, no blog do jornalista Pedro Doria, ele confessa que diante da incerteza da vitória de Lula, teve uma crise de pânico dentro de um taxi ao considerar a possibilidade da vitória de Bolsonaro, e a consolidação de seu projeto reacionário. O mesmo Bolsonaro que havia tido 2 votos na eleição para presidente do congresso nacional em 2017, e que em meio a avalanche da caça aos corruptos parecia surfar incólume junto a seu grupo de apoio formado pelos empresários, donos dos meiso de comunicação, cúpulas das forças armadas e lideranças do agronegócio. Seu apoio popular de aproximadamente 30% de eleitores era surpreendente mesmo depois da acusação de ter capitaneado uma irrresponsável estratégia do governo federal para combater a pandemia, e com um trágico resultado de mais de 700.000 mortes. 

Pedro Doria é um exemplo de um personagem experiente da mídia, uma das instituições que deveriam atuar como controle e salvaguarda da democracia, e que resolveu atuar como juiz de acusação nos processos de corrupção. Essa caçada aos corruptos e inimigos políticos já aconteceu em vários momentos da vida brasileira ameaçando ceifar a cabeça de qualquer um. 

Infelizmente, o pânico que ele sentiu é parte daquele que ele ajudou a infligir. Em certo momento, parecia ser claro: o futuro do Brasil exigia a eliminação do partidos de esquerda. Diversos atores com sinais e instituições trocadas passaram a julgar, acusar, absorver, legislar, decidir em um processo sem freios do tipo "bola de neve", que ameaçava fazer terra arrasada de toda possibilidade de dialogo. Haviam os certos, e os errados não tinham ao menos o direito ao pleno exercício da defesa.

Atores políticos, jornalistas e intelectuais em um justo afã de transformação e melhoria da nossa democracia, colocaram em risco a própria democracia ainda que capenga. O direito de discordar, e de constituir minorias é o ponto de equilíbrio da democracia, que pode ser vista com uma recurso comum, com regras de compartilhamento. Além disso, o direito ao estado de inocência até que o processo jurídico tenha ultrapassado todos os estágio de um julgamento, ao lado do direito da ampla defesa, é fundamental para que a tragédia dos comuns não se repita no ambiente das decisões políticas. 

Na tragédia dos comuns termo criado por Garret Jardin, biólogo norte-americano, os usuários de um recursos comum não respeitam regras de compartilhamento do recurso, e este acaba extinto levando a serias consequências. O exemplo utilizado pelo professor Garret é de um grupo de agricultores, que utilizam uma área comum para a pastagem de suas ovelhas. Se não houver regras de uso a tendência a colocar mais uma ovelha leva a um aumento de ovelhas acima da capacidade de suporte da área de pastagem.

Em 2023, pode-se dizer que a democracia brasileira saiu vencedora mas precisa reafirmar suas regras de convivência e compartilhamento do espaço público para o debate, a reflexão, e a opinião. Essa é uma responsabilidade de todos os brasileiros.



quinta-feira, 29 de setembro de 2022

Adaptação Climática: carta ao Presidente da República

Exmo. Presidente da República, Lula da Silva

A adaptação climática é o processo de ajustar sistemas naturais e humanos às alterações climáticas correntes, ou previstas, de modo a maximizar co-benefícios e minimizar perdas, bem como manter, e aumentar as capacidades, e criar novas, para  lidar com eventos extremos.  A capacidade de adaptação se relaciona com as formas de minorar impactos, aproveitar oportunidades e contruir uma governabilidade para adaptar-se as consequências das decisões tomadas. A adaptação se aplica prioritariamente as áreas mais vulneráveis onde o grau de sensibilidade e exposição ás mudanças climáticas é elevado, e a capacidade de resposta adaptativa também é limitada.

Na China antiga se dizia que o clima era a expressão do padrão de pensamentos dos moradores de um lugar. Pensamentos tortuosos, que se distanciavam da paz e harmonia, geravam tempestades, tormentas, nevascas e enchentes. Assim como os chineses, diversos outros povos do planeta passaram a vincular eventos climáticos extremos, com configurações planetárias no céu, e sociais na terra. Governantes habilidosos conduziam seus povos a estabilidade e paz, e contribuíam para a domesticação do clima, com a criação de uma atmosfera de pensamentos harmoniosos.

Historiadores e religiosos de todas as culturas registravam os eventos extremos do clima. Explicações míticas foram construídas, algumas delas inspiram até hoje as novas descobertas da ciência do clima. Na teoria científica dos Rios Voadores, grandes territórios de cobertura vegetal teriam o papel, ainda não totalmente explicado, de criar forças de atração para as correntes aéreas ricas em humidade. Esta teoria tem um paralelo no pensamento popular. Na bacia do Pipiripau, onde está a região administrativa de Planaltina, um dos agricultores mais antigos na região, explica com a autoridade de quem vive na bacia a mais de 50 anos naquela bacia, que “a chuva foge de onde não tem mato”. A chuva viajaria pelos céus a buscar um território vegetado para desaguar concordam alguns cientistas, e agricultores que "adivinham" o clima.

Eventos extremos sempre ocorreram na história da humanidade, e posturas diferentes foram sendo tomadas. Mitológicas, ou científicas, as razões do Clima sempre estiveram entre nós. Amartya Sen, Prêmio Novel de Economia indiano, demonstra que a grande fome nordestina, na qual milhões de nordestinos vieram a óbito, na segunda metade do século 19, poderia ter sido evitada se houvesse uma atuação planejada do governo brasileiro e britânico para criar estruturas de amortecimento dos impactos e vulnerabilidades ao clima. Esta e outras secas no Nordeste levaram a constituição de estruturas hídricas intermitentes, como açudes e cacimbas, e programas emergenciais paliativos, mas não criaram estruturas de governança adaptáveis as transformações do ambiente humano e natural. 

A transposição do São Francisco, em que pesem algumas críticas em relação a gestão do projeto de infraestrutura caminha no sentido de ser uma política de adaptação direcionada a minorar os danos dos períodos de estiagem na região atendida. Mas, em todos os setores da economia, se fazem necessárias estruturas de adaptação climática. Na agricultura, pecuária, na indústria e nas estruturas logísticas (portos, aeroportos, estradas) os planos de gestão de risco climático devem ser construídos participativamente de modo a constituir Territórios de Mitigação e Adaptação (TMA). A criação destes TMA's contaria com dotação orçamentária, com fontes variadas de recursos, públicos e privados, já presentes nos mecanismos de mitigação, e que se somariam aqueles recursos presentes em mecanismos de adaptação. 

Os planos de gestão de risco seriam ampliados através de um planejamenento estratégico de adaptação climática aglutinando pontos de sinergia entre as políticas públicas já existentes, e expandindo os territórios TMA. Os múltiplos atores presentes nestes territórios de adaptação constituiriam redes de influência, difusão de informação e cooperação, e inovação tecnologica para os territórios TMA. A promoção destas dos territórios TMA seguiria a lógica dos nexos água-energia-alimento-clima (AEAC) e seu grau de vulnerabilidade e risco.  

Identificado um território TMA e seu atores será proposto um processo de climatização das políticas públicas existentes. No áreas de grande presença de florestas, estas sinergias entre os nexos AEAC e as políticas públicas são mais fáceis de ser identificadas devido ao conjunto de serviços ecossistêmicos providos pelas florestas. É possível conciliar o desenvolvimento local das comunidades, que habitam ecossistemas florestais, com o provimento de serviços ecossistêmicos para a estabilização do clima e da economia local. 

Em cada território de mitigação e adaptação (TMA) seriam identificados os principais serviços ecossistêmicos , os possíveis custos e benefícios das sinergias propostas pelos atores envolvidos para melhorar o grau de adapatação do Nexo AEAC.

No setor das infraestruturas logísticas, sensível ao impacto das alterações climáticas nos materiais construtivos, de acordo com as alterações de temperatura, umidade, velocidade dos ventos sobre as estruturas, é possível criar linhas de investigação e inovação científica envolvendo tecnologias de previsão, e novos materiais mais resilientes. 

Nos sistemas de mobilidade urbana, a experiência internacional indica que é possível diminuir as emissão de carbono através da inovação tecnológica e do oferecimento de opções de mobilidade alternativas, ao mesmo tempo em que o planejamento urbano poderá inserir formas de ordenar o crescimento das cidades, para evitar problemas como as ilhas de calor, e as enchentes, ao mesmo tempo em que pode oferecer ou ampliar o fornecimento de novos serviços ecossistêmicos através da revitalização dos rios urbanos e de suas margens, criação de políticas de agricultura urbana, e a promoção da arborização com objetivos de minorar efeitos das alterações climáticas nas estruturas urbanas.

Na agricultura e pecuária, o aumento da eficiência na produção aliada a políticas de comando e controle tem diminuído as emissões de carbono, e contido o avanço sobre a fronteira florestal. Inovações agroecológicas têm apresentado inovações viáveis através de consórcios agroflorestais e agropastoris com capacidade adaptativa. O Programa ABC (Agricultura de Baixo Carbono) é outro exemplo de política já implementada no passado, e com ajustes , poderia ser redesenhada para associar a mitigação de emissões as transformações adaptativas nos sistemas de produção, com os recursos sendo prioritariamente direcionados aos territórios de adaptação climática.

Para que os multiatores, destes macros setores em territórios TMA, negociem e construam seus planos de gestão adaptativa  dentro das macro-políticas de adaptação, é necessário que a gestão seja feita de modo a permitir que a participação social seja ativa e promova ajustes e adequação das políticas de modo descentralizado. Isso foi feito com sucesso e em diversos níveis de governo (federal, estadual e municipal) no programa Bolsa Família. Este programa nos territórios TMA pode gerar soluções integradas como o  Bolsa Verde, que tinha o objetivo de conciliar transferência de renda e contrapartidas ambientais.

As vulnerabilidades destas populações podem ser medidas a partir de seu grau de exposição as mudanças climáticas, e sua sensibilidade aos impactos bem como sua capacidade de resposta adaptativa. Há inúmeras possibilidades de sinergia que podem ultrapassar a inercia das estruturas políticas estabelecidas para construir nexos e assim consolidar novos comportamentos e posturas. 

Mesmo quando o grau dos eventos extremos exceder tanto a capacidade adaptativa, quanto a sensibilidade e exposição nos territórios TMA, haveram planos de reconstrução apoiado por setores em áreas não atingidas e fora do expectro de maior alteração climática. Neste sentido, para além dos territórios TMA, outros territórios mais adaptados teram o papel de socorrer as populações afetadas, e gerar uma economia do cuidado e da adaptação.

Se os planos de Adaptação caminharem ao lado da inovação científica, de modo a promover um amplo diálogo com a sociedade e o mercado, a harmonização dos diferentes pensamentos levará ao enfrentamento equilibrado da inexorável mudança climática e das vulnerabilidades dos sistemas naturais e humanos com desenvolvimento de novas capacidades e de uma cultura da mitigação e adaptação climática.

 

 

sábado, 27 de agosto de 2022

Capoeira as a commons

That´s a very good issue: how to translate capoeira "roda" in English? Let us be back in time...Rio de Janeiro city, 1738...vendors, sailors, free men from Europe, slaves from Africa that speak Bantu or Malê languages. These African folks used to have rites of passage to their adolescents mainly fight technics to be utilized in combats. Back in Rio de Janeiro, Capoeira is a Tupi-Guarani language word (Tupi-Guarani was the official language of Brazil until 1757) used to denominate those people that utilize these mixed fight movements in conflicts. 

Capoeira can also be seen as a cooking pot of body cultures, and world views, that clashed and collaborated with each other in order to survive and control parts of this urban landscape. In that way, the possible translation of this old Portuguese word "roda", which comes from the old Catalan language, can be what a careful observer would see in those colonial ports like Rio de Janeiro: not a circle but an environment, the capoeira environment. Some scholars from Brazil have thought the rodas of capoeira as "new quilombos". Quilombos were territories where slaves who escaped captivity find a community to hide and then build resistance. The biggest of these quilombos was the Quilombo dos Palmares which had 20 thousand inhabitants by 1670.

The environment word started to be used in old English by 1603, according to Oxford Dictionary, which comes from the old French language word "environ" which means 'circuit', 'surround', 'enclose', and 'circumstances'. but the coinage of the term environment historically can be seen as an intersecting social, political, economic, and agrarian changes, and a pivotal moment of transnational cultural exchange.

Actually, there is even a better word for "roda": commons. The definition of commons represents a synthesis of the role of capoeira in Brazil: a resourceful environment where many types of "resources" can be shared like music, spirituality, physical education, dance, martial technics, gaming, historical source, sociology, and anthropology way of seeing the Brazilian society and so on. 

Capoeira commons means the territory of relationships where Brazilian people can practice cultural resistance, historical memory, and freedom.

terça-feira, 5 de julho de 2022

Ciência é para comer

Imagine que num reino distante toda terça feira é o dia do banquete, no qual participam e preparam o festim as famílias de cada rua, de cada cidade deste reino. Há uma quase declarada disputa por novos pratos, nos ingredientes, temperos, frutos, enfim, novos sabores. Todo morador do reino se orgulha de seu paladar e capacidade olfativa. Contudo, neste reino existiam aqueles que não estavam interessados pela comida, mas como as combinações seriam digeridas, se causariam mal, e mais especificamente como corpo humano digeria estranhas e novas combinações. 

Compêndios de nutrição eram então cotejados por trados de medicina em especial de cirurgia torácica, com atenção para o órgão humano mais valorizado no reino: o estomago. Glutões e barrigudos eram disputados pelas moças, restando aos magros o estudo e a ciência. 

Eis que um dia em alguma terça-feira do reino, uma família oferece ao prefeito e seus secretários, um bela refeição de muitos pratos entre eles uma salada com frutos silvestres frescos colhidos no campo. Os frutos eram uma novidade, e como os mamíferos da floresta também dele se alimentavam, foi escolhido para ornar a salada a pesar de seu gosto adstringente mas levemente açucarado. 

Lá pelas 4 da tarde, um incrível sono, que se seguiu ao coma profundo abateu-se nos convivas, em especial o prefeito e colaboradores. A noticia rapidamente chegou ao rei: 20% da população de um vila tinha entrado em profundo coma após comer um fruto selvagem. Todos os cientistas, magros ou quase, foram chamados. Magos, curandeiros e rezadores se juntaram a junta médica, além dos médicos.

Depois 3 dias todos foram voltando do sono profundo, e se perguntando o que havia acontecido a eles. Minguem encontrava a resposta, quando um cientista do reino, ferido em uma caçada, e tendo muita dor, esmagou nas mãos os tenros frutos, encontrados na floresta, aqueles que causavam o sono coletivo, e espelhou sobre o corte. O braço ficou dormente e a dor foi embora. Grande alarido correu pelo reino de que aquele magro pensador havia encontrando utilidade para aqueles frutos proibidos pelo rei. Estava descoberto um relaxante muscular e analgésico de largo espectro, que iria tratar a gota na perna do rei, ate o fim de sua vida, quando morreu...dormindo.

quarta-feira, 29 de junho de 2022

Da Eco 92 à Pandemia de Covid-19: entre a economia e a natureza.

Mesmo cursando engenharia, e tendo feito iniciação científica em engenharia e meio ambiente, e tendo definido meu caminho profissional pela área ambiental, o que me levaria a organizar uma excursão da minha universidade á conferência das Nações Unidas, a Eco-92, no Rio de Janeiro, eu intuía que o desenvolvimento sustentável não surgiria apenas de uma mudança tecnológica, que veio a galope nas próximas duas décadas tornando o mundo menor e interconectavel com a internet e a revolução microeletrônica. Seria necessário mais do que isso. Todos os participantes do mundo circulando pelo Rio com seus turbantes e roupas coloridas pareciam mirar o espaço vazio buscando o cerne do problema ambiental. 

Eu fui buscar respostas no departamento de economia. Me matriculei nas disciplinas de economia ambiental e desenvolvimento econômico, pois já tinha feito antes introdução a economia. Fiquei ali 1 ano buscando entender que mudanças na forma de organizar a produção e a circulação da moeda nos levaria a sustentabilidade. Os pensadores do desenvolvimento de um lado buscavam entender os processos de produção e os da economia neoclássica pensavam em formas de desestimular monetariamente as atividades destruidoras do meio ambiente e estimular as atividades sustentáveis. Enquanto, isso, lá fora no mundo, países que adotavam um dos dois modelos seguiam destruindo o meio ambiente, no curto prazo, numa estranha competição. 

Sim, algo unificava as duas escolas: a busca do bem estar de suas populações de preferência no curto prazo, onde as atividades econômicas poderiam ser aferidas pelo valor das utilidades produzidas e as horas de trabalho empregadas. Ambas as escolas econômicas seguiam os preceitos de David Ricardo, economista inglês do final do século XIX, que defendia que o valor das coisas está na sua capacidade de circulação, e no esforço humano para produzi-las. O meio ambiente era muito complexo para entrar na equação econômica. A minha pergunta, e de tantos outros era: como fazer o meio ambiente pode ser central na reflexão econômica uma vez que ele é a base material de todos os sistemas econômicos? Hoje, eu me pergunto como os sistemas econômicos podem retornar a considerar a rede ecossistêmica da natureza onde estão assentados.

Quanto mais complexo mas difícil de entrar nas formulas econômicas que emulavam sistemas físico. Erik Reinert, economista norueguês, mostra que o primeiro livro escrito por Adam Smith foi sobre astronomia, e isso explicaria a metáfora da mão invisível da força gravitacional que mantem os planetas das em orbitas estáveis, e a mão invisível do mercado que garante um equilíbrio de demandas e ofertas de produtos e serviços bem como seus valores de troca. Dos acordos da Eco 92 o de mais difícil implementação tem sido o da biodiversidade, talvez pela complexidade envolvida por cada ecossistema do planeta. E foi justamente a diminuição da biodiversidade em todo o mundo que tem fornecido o combustível para novos patógenos e doenças. O mapa que mostra o avanço da cidade de Yuhan na China em direção a área de cavernas com morcegos pode ser o primeiro capítulo da pandemia da Covid-19, que atingiu alguns países no final de 2019, e escalou para o mundo a partir de 2020.

Para articular diferentes acordos sobre a natureza no contexto de um sistema econômico atual que se guia por metodologias de valoração, que excluem a qualidade e quantidade dos recursos naturais, que lhe dão a base material, precisaríamos de uma métrica que articulasse de modo transdisciplinar economia e natureza. Essa métrica é a agua que é absorvida e transformada nas bacias hidrográficas, e que faz parte de todos os processos econômicos, sociais e ambientais. Contudo, a decisão inicial foi a contabilização do carbono equivalente, emitido ou absorvido pelos usos do solo e ecossistemas, como moeda do desenvolvimento sustentável. 

Ao completarmos 30 anos da Eco 92 é preciso um avaliação do uso das emissões de carbono nos acordos ambientais globais.

sexta-feira, 10 de junho de 2022

Ativos Econômicos e Capacidades de Adaptação: um sistema de 3 bolsas de valores integradas

Imagine em um futuro não tão distante que uma empresa com ações na bolsa automaticamente estaria participando em uma bolsa paralela de passivos ambientais. Uma anti-bolsa alguém poderia dizer. Quem se interessaria em comprar passivos ambientais? è bom lembrar que as bolsas são mecanismo que surgiram no final da idade média para criar uma rede de investidores ao redor de uma empresa lucrativa para contrabalancear a pulverização de pequenas empresas concorrentes ao redor da mais lucrativa. Se para abrir uma loja preciso de 1000, e eu só tenho 500, investir na empresa que já existe e receber dividendos sem correr tantos risco seria mais vantajoso. 

Um bolsa de passivos ambientais, poderia ter o formato de uma bolsa onde se compra, vende e troca dividas com o meio ambiente. Nesta bolsa empresas  poderiam adquirir as ações de passivos ambientais e o pagamento seria feito na forma de implementação projetos para diminuir estes passivos, ou zerá-los. O financiamento seria do governo utilizando recursos de impostos ambientais cobrados das empresas públicas e privadas. Uma ação de passivo saneado passa a fazer parte do portfolio da empresa ambiental, que também teria capital aberto em uma bolsa de capacidades de resiliência. Este esquema de três tipos de bolsas operando em paralelo iria injetar capital tanto nas bolsas tradicionais quando na bolsa de capacidades de resiliência.

terça-feira, 31 de maio de 2022

Da Economia Neoliberal ao Projetamento Sustentável

A Economia que vem sendo pensada como um sistema fechado, o mercado, onde circulam um conjunto de moedas para impulsionar o movimento de produtos e serviços, foi elaborada ha alguns séculos e hoje atende pelo nome de Neoliberalismo. Imperfeições ao mercado são chamadas de externalidades. Mas nem sempre foi assim. Segundo Cristovam Buarque, economista brasileiro no centro da vida dos antigos gregos estava a arte de planejar os usos dos recursos da oikos (casa), e que eles chamavam de Economia.

Fausto Castilho, fundador da Escola de Ciências Sociais da Unicamp indagava quem poderia planejar no capitalismo financeiro. "Nem o banco alemão pode planejar!" dizia o emérito professor da Universidade de Campinas. Se planejar é visualizar, ordenar, e classificar um grupo de recursos e usos para construir projetos, programas e politicas. que visem aumentar o bem comum, como pensavam os gregos, este seria o papel fundamental da Economia. No centro do debate esta justamente o que é o bem comum, quem o define, quem pode acessá-lo, e quem não pode.

Uma teoria do valor é necessária para definir o que é essencial e o que tem valor para o bem estar dos seres humanos e merece prioridade na alocação de recursos. Este é uma tema filosófico, que mobilizou diversas escolhas econômicas desde a alta idade média. Os fisiocratas acreditavam que o centro do valor estava na terra, ou seja sua valorização  aumentaria o bem estar. O mais famoso representante dessa corrente foi o economia inglês Thomas Malthus, que acreditava que as necessidades humanas cresciam em taxa geométrica e os recursos da terra em taxa aritmética prescrevendo assim o controle populacional. 

Para seu contemporâneo francês, o Marques de Condorcet, o melhor a fazer é moderar as necessidades humanas para atingir o desenvolvimento, ou seja, o acesso a educação, saúde e boas condições de vida inclusive o acesso a natureza levaria a baixa taxa de natalidade. Ou seja, o bem estar pode ser medido conforme a possibilidade de acesso ao que gera o bem estar. Novamente, a definição de bem estar irá variar de individuo para individuo. Adam Smith e David Ricardo, ambos economistas neoclássicos inglêses, defendem que o valor da utilidade que conduz ao bem estar é definido pelo preço de equilíbrio entre a demanda e a oferta das utilidades, ou seja produtos e serviços que podem aumentar o bem estar das pessoas tem maior utilidade.

Muitos economistas tem questionado essa "sabedoria" do mercado em julgar com base na demanda e na oferta a essencialidade e o valor das utilidades produzidas. Quando este sistema de preço não é eficiente em prover mercado para determinado bem essencial como a água e o ar, regras adicionais são construídas para lidar com as imperfeições de mercado, aquilo que está fora do alcance da caixa de ferramentas da economia, ou seja suas externalidades. Aonde o sistema de preços não é suficiente para oferecer o recurso ao seu menor valor marginal, outras estratégias devem ser utilizadas. 

O advogado brasileiro Ignácio Rangel, já falecido e nascido em 1914, questionou a teoria neoclássica do valor para propor uma nova racionalidade sobre as utilidades produzidas pelo processo econômico e que são responsáveis pelo bem estar da população. Nessa racionalidade, o valor é definido pela sociedade através do estado, que deve mobilizar de recursos ociosos de modo a gerar pleno emprego. Neste momento, estamos vivenciando justamento que os recursos naturais não são amis ociosos. Rangel era consciente das diferenças, entre o que uma sociedade almeja, e o que o Estado possa articular com o sistema político. Neste sentido, ele dois momentos cruciais da ação estatal e social: o plano e o projeto. 

Ignácio Rangel participou da elaboração do plano de desenvolvimento de Getúlio Vargas e dos plano de metas de JK. Na prática ele entendeu que as estruturas estatais, representativas do sistema político, podem apresentar um plano de desenvolvimento composto de projetos específicos e estruturantes, mas são os executores dos projetos juntamente com a participação social, que implementam, e podem alterá-los para que cumpram com seu objetivo central: a geração de empregos e do bem estar social , econômico e ambiental. A iniciativa privada e a sociedade civil são igualmente parceiros nestes projetos de desenvolvimento. A execução dos projetos é sobretudo uma oportunidade de aprendizado social, e é esperado que o acúmulo de experiências na implementação dos projetos ajude a aperfeiçoar novos ciclos de planejamento. 

Contudo, a utilidade pensada por Rangel, observando as caraterísticas dualísticas da economia brasileira, aberta ao interior e ao exterior ao mesmo tempo, esquece que o bem estar depende dos serviços ambientais e de uma macroestrutura ecossistêmica. Segundo Rangel, o desenvolvimento representa a máxima produção de utilidades incluindo o autoconsumo  das populações, ou seja, é um processo vai além do aumento da renda. Neste sentido, os serviços ambientais vão além do papel crucial no oferecimento destas utilidades, e também não fazem parte da renda embora sejam a base material de seu crescimento. Ao incluir a sustentabilidade como objetivo do planejamento deve-se mobilizar recursos sociais e econômicos ociosos e capacidades de adaptação para preservar recursos naturais escassos.  Os ecossistemas e seus serviços são a base para do autoconsumo e do bem estar do sistema econômico entendido como um sistema fechado dentro de um sistema maior. 

Com base nas ideias de Ignácio Angel, e da critica das histórias das ideias econômicas sobre geração da riqueza, a Economia do Projetamento Sustentável é um processo de desenvolvimento, que mobiliza os agentes públicos, privados e da sociedade civil, através do planejamento de recursos socioeconômicos ociosos e das capacidades de adaptação á mudança ambiental, para produzir o máximo bem-estar social, econômico e ambiental, através de projetos territoriais estruturantes visando o bem-estar da população, e a resiliência sócio-ambiental  baseados em análises ambientais extratégicas.


quinta-feira, 19 de maio de 2022

Laplace no Espelho

Com a Astrologia a humanidade tenta espelhar seu comportamento nas trajetórias dos planetas e estrelas, no macrocosmo e seus movimentos periódicos compilados pela astronomia. O retorno de determinada configuração no céu é relacionada com o destino na terra, como se o espaço sideral fosse a representação da vida social. Mitos são criados para descrever a criação dos astros celestes, apresentando-os como deuses e divindades, alguns com comportamentos humanos.  

Na nova crença, a Física Quântica, a mesma humanidade busca espelhar seu comportamento na incerta trajetória das partículas e energias subatómicas onde tudo está em relação com tudo e não há certezas mas probabilidades. Fenómenos sutis da existência humana passam a ser extrapolados de comportamentos de partículas subatômicas em condições experimentais muito especificas, como aquelas dos aceleradores de partículas com quilômetros de extensão. A vida tem uma probabilidade muito baixa de existir do ponto de vista bioquímico, e em condições de laboratório, mas mesmo assim surgiu em algum momento da história do planeta Terra. A mesma vida olha para o macrocosmo e para o microcosmo na busca de entender sua existência. Neste sentido, a vida é um fenômeno complexo que emergiu desse encontro sistémico dos mundos macroscópico e microscópico, mas não pode ser explicada nem por um nem pelo outro. 

Stephen Hawking, famoso físico inglês que dedicou sua vida a estudar o microcosmo, acreditava que não existem mais evidências que física quântica estaria correta em suas previsões do que para a astrologia. A física quântica goza de mais prestígio acadêmico, pois se relaciona com outras teorias da física, largamente testadas, mas a astrologia tem mais apelo popular dado o desejo humano de prever o futuro, e de desvendar as sincronicidades do tempo e do espaço.

O princípio da incerteza, base para a física quântica, coloca um fim no sonho do matemático francês Pierre-Simon Laplace de uma teoria da ciência, que poderia criar um modelo determinista para o universo. O sonhos ficou conhecido como o "Demônio de Laplace", que era a hipótese de que se houvesse um intelecto que conhecesse todas as forças que determinassem o estado inicial de todos os átomos do universo, e que também conhecesse todas as posições destes átomos, e pudesse reunir numa fórmula todas essas informações para explicar o movimento dos grandes corpos do universos e das menores das partículas, este intelecto conheceria o passado, o presente e o futuro.

A emergência da vida no planeta terra como um fenômeno complexo desdobra-se no tempo e no espaço enquanto construímos uma equação para prever o futuro. 


 

segunda-feira, 9 de maio de 2022

O que é Sustentabilidade: seis passos para uma resposta provisória

Criar em espaços geográficos territórios de vida social e cultural é o que Homo sapiens tem feito nos últimos 2 milhões de anos, dos quais a história contada e escrita representa apenas 10% do tempo dessa incrível jornada. Nos dias de hoje, repetimos o mantra da sustentabilidade esperando que algo ancestral ressoe em nós, e nos indique o caminho da convivência com a natureza. Formular uma boa questão, e analisá-la de diferentes ângulos antes de respondê-la é o que nos aconselharia o físico alemão Albert Einstein: "se tiveres 60 minutos para responder uma pergunta gaste 55 minutos analisando a pergunta e 5 minutos para respondê-la". Afinal: o que é a sustentabilidade? Para chegar ao território das respostas, nossa análise precisa atravessar 6 ideias epistêmicas:

Primeiro ideia: Duração

O grande ecólogo norte-americano Stephen Gliessman diz que a sustentabilidade é o teste do tempo. Ou seja, aquilo que resiste ao tempo, aos conflitos e mudanças da história, ás mudanças do clima e da biosfera, o que dura e perdura é sustentável. Se estamos diante de uma qualidade dos sistemas humanos e ambientais, que se reflete pela estabilidade climática, harmonia social, conservação dos recursos naturais, não podemos responder que arranjo social entregaria este pacote de efeitos positivos sem analisar sistemas ancestrais de produção e vida comunitária. 

Segunda ideia: Complexidade

O filósofo francês Edgar Morin abordaria a resposta á pergunta sobre o que é a sustentabilidade como algo que emerge de um sistema complexo. Mas quais são os contornos de um sistema, ou sistemas, e de onde emerge a sustentabilidade, posto que podem ser várias formas de sustentabilidade com diferentes tonalidades e intensidades para cada sistema. Sistemas são composto de subsistemas em relação, ou retroalimentação, dupla implicação, interação, incerteza e ambiguidade. Logo, sem tentar responder o que é sustentabilidade é possível especular, que características alguns subsistemas sociais e tecnológicos deveriam apresentar para que as interações que por  ventura emergem sejam sustentáveis. Além de considerar a questão da sustentabilidade, Edgar Morin muito certamente levantaria a bandeira de uma reforma do pensamento para poder abordar esta pergunta.

Terceira ideia: Justiça

Os contornos da resposta que buscamos poderiam estar próximas da sabedoria social nórdica de que as as sociedades devem oferecer luxo público, ou politicas publicas de qualidade (saúde, educação, transporte, etc) para vidas privadas frugais. Mas há uma tradição filosófica e econômica que defende sociedades com estados mínimos para dar espaço a vidas privadas luxuosas agraciadas através do mérito. Ou seja, como os recursos naturais são limitados, as escolhas sociais do que produzir, distribui e usufruir e quem deve produzir, consumir e usufruir coloca a necessidade de como serão distribuídos os frutos de uma vida sustentável entre a população. Que critérios serão utilizados, e quem terá direito a mais ou menos acesso, e sob quais critérios, aos efeitos positivos do que vem a ser a sustentabilidade. Amartya Sen, prêmio Nobel de economia, traz a noção de capacidade dos seres humanos de construir novos graus de liberdade como expressão do desenvolvimento.

Quarta ideia: Linguística

Será que já temos um contorno das dimensões de circundam nossa pergunta-chave e podemos passar ao tempo final da resposta? Antes, será que podemos dizer que a resposta será sustentável, ou seja, ela terá a estabilidade, equilíbrio e racionalidade necessária para ser a resposta certa? Ou por outra: é sobre a sustentabilidade que estamos perguntando? Ou, seria melhor formular outra pergunta com base em conceitos mais adaptados a análise da duração, complexidade e distribuição vistas anteriormente? O antropólogo polonês Bronisław Malinowski os sistemas de governança desenvolvidos por povos tradicionais gera sentimentos de pertencimento e confiança, que irão se manifestar culturalmente de diversas formas, em especial nos processos de nomeação e adjetivação da língua nativa, e estabelecem a base para o desenvolvimento de sistemas de governança locais para recursos de uso livre.  No meio computacional e também militar o termo mais usado seria sobrevivência (survaibility). Na ciência da Ecologia o termo mais utilizado é a resiliência, e na ciência econômica o termo histórico que irá gerar outros conceitos é o ecodesenvolvimento. Na disputa pelo nome que plasmasse este conjunto de preocupações, as Nações Unidas no final da década de 80 adotou o adjetivo sustentável aplicado ao conceito de desenvolvimento, para acomodar as divergências, e expressar, que as necessidades de recursos naturais tem de satisfazer as gerações atuais e futuras. Inúmeras disciplinas científicas e tecnológicas passaram a usar o mesmo adjetivo: arquitetura sustentável, engenharia sustentável, agronomia sustentável. Vê-se que o uso do substantivo sustentabilidade vem depois da popularização de seu adjetivo,  o que inverte a ordem linguística, e mostra que tanto um quanto o outro são dependentes da compreensão do que é desenvolvimento. 

Quinta ideia: Incerteza

Antes de finalmente de mergulhar na resposta é preciso aprofundar nossa reflexão sobre o por que não haver uma palavra, ou várias, para explicar o processo de adaptação ao meio natural e a construção de modos de vida iniciado pelo Homo sapiens há 2 milhões de anos. Há muitas palavras e expressões, em diversas linguas, para descrever essa adaptação e o processo de compartilhamento de recursos entre os habitantes. Expressões como "commons" (Inglês), "aipi" (Quechua), "Cielo de Pepiripau" (Español) nominam processos de compartilhamento comunitário de recursos naturais, bem como a solidariedade entre os habitantes na divisão dos diversos frutos de um território. Seria então a sustentabilidade um novo termo, que seviria como simulacro, para esconder do senso comum a ferrenha disputa pelos  recursos naturais nos tempos modernos, a qual se dedica a disciplina da geopolítica? Se há cada vez menos ambiente e recursos, e mais ambições a cada século, a ciência econômica e a lei da escassez nos daria boas dicas de como resolver o problema. Mas teríamos que lidar com as imperfeições de mercado. As imperfeições poderiam ser tratadas através de acordos entre os atores sociais com ajuda da ciência política. A dificuldade de chegar a consensos políticos poderia dar lugar a imposição da força. O uso da força para defender direitos de acesso aos recursos naturais desvia grande parte da energia social e econômica para o jogo da corrida militar e da geopolítica. Enrique Leff, pensador mexicano, diria que é no limite de uma disciplina acadêmica está localizada a ponte da incerteza que abre espaço para outra disciplina participar do debate em aberto. Se a sustentabilidade fosse uma pergunta filosófica ela representaria um território interdisciplinar com pontes de incertezas entre ilhas disciplinares, e seria necessário mudar o significado de incerteza, de algo sem certezas para algo cuja certeza está em outro lugar. A sustentabilidade parece depender da relação estabelecida com o observador.

Sexta ideia: Percepção

Alguém poderia ainda perguntar: se o processo que cria a pergunta inicial é tão antigo quanto o homo sapiens por só agora surge o termo que queremos definir e solucionar? Talvez a resposta fosse porque sempre havia o próximo vale ou rio a explorar, a próxima floresta a cortar. O planeta tem mais de 200 países, e quase 8 bilhões de habitantes, sendo 1 bilhão de ricos e classe-médias e 1 bilhão de miseráveis, e outros 6 bilhões entre os dois polos, recebe enorme pressão ambiental do sistema econômico. Contudo é interessante notar, que os ditos miseráveis e povos tradicionais (aqueles que ganham menos de 2 dólares por dia) vivem próximos de 90% dos recursos naturais ou nas áreas mais degradadas ambientalmente.  A percepção ambiental destes "miseráveis" ricos em recursos naturais é culturalmente ligada as formas de vida em ecossistemas florestais como a Floresta Amazônica e a Savana Africana. Logo, os métodos de conservação e preservação, e integração de práticas de uso dos recursos passa pelo desenvolvimento de modos de gestão comunitária dos recursos comuns a estas populações ("commons") que não podem ser separados de suas identidades culturais.

Uma resposta provisória:

Nos derradeiros 5 minutos da resposta, seria tautológico dizer que precisaríamos de uma nova disciplina científica para responder uma questão complexa como "o que é a Sustentabilidade?". A resposta, que não é trivial, parece girar em um redemoinho cartesiano buscando um sentido de orientação: Sustentabilidade é um campo de saber, formado por relações dialéticas e dialógicas de representação, retroalimentação, ambiguidade e incerteza entre as displinas que estudam os fenômenos sociais e naturais, e que busca compreender os processos de nomeação e percepção dos interesses, usos de recursos naturais, seus conflitos, acordos e cenários de futuro, que atravessam territórios de relações entre atores sociais, e deles com as naturezas, e das naturezas com elas constituindo assim ecossistemas de relações.

2020: o ano que não terminou

Enquanto a cabeleireira esticava uma mecha de fios (eu contei mais de 20 centímetros de cabelo), para corta-la rente aos seus dedos, um ano se passara, ainda que a pandemia continue matando. O tempo deste ano poderia ser contado da raiz a ponta capilar. Ainda restou um pouco de alegria para comemorar o ano novo de 2021? O tempo fez em mim cabelos brancos de medo, apreensão, dúvida e esperança. Fiquei mais grisalho e consciente dos estratagemas, cenários e narrativas, e atento aos discursos dissonantes, mentiras elaboradas, e autoenganos. A crueldade e vileza conviveu com a extrema coragem e o altruísmo. Um ano de extremos humanos fez aniversário neste janeiro, que não nasceu ainda. O povo brasileiro lutou para não sucumbir porque era luta conhecida de um cotidiano à beira do caos: 200 mil mortes e contando! Nem precisa ser sociólogo para saber onde o coronavirus ceifou mais vidas. Os cabelos em cachos vão caindo sobre o manto branco da barbearia de mascara. Caem os meses e os dias sobre a memória, e caem as ilusões, sonhos e madrugadas. A maior conquista do ano, que não terminou ainda e segue ao longo da década é entender que “crise”, em chinês, não significa oportunidade, mas coragem de ver claro a realidade.

Os OVNIs estão chegando (de novo…)

A cena é do ex-presidente Barack Obama sendo entrevistado. Obama governou os Estados Unidos da América por durante 8 anos, e se destacou como o primeiro presidente negro norte-americano. Ao entrevistador diz que não pode dizer tudo que sabe sobre os objetos voadores não identificados, os OVNIs. Interrogação no ar? De novo. 

Estes personagens voadores aparecem na ficção científica, em especial, depois da segunda guerra mundial, e impulsionam um imaginário espacial e o apoio popular á corrida espacial, em especial nos EUA, que à época construíam seu programa espacial, a NASA, com a importação de cientistas alemães. Na próxima década o tema evoluiu em complexidade dando origem a várias séries de TV e Cinema tais como Star Trek e Perdidos no Espaço. 

Coincidência ou não tanto na ficção quanto na realidade as autoridades nunca podiam falar tudo que sabem. O que se sabe é que o tema volta e meia retorna as telas, e aos noticiários geralmente em momentos em que é necessário maior aporte de recursos para o programa espacial. Neste momento, a China revela seu plano de uma base espacial na Lua, e claro o Tio Sam não pode ficar para trás, isso se sabe muito bem.

Para Ivan Illich: industrialismo e modernidade

A modernidade (ou sua versão “pós”) nos oferece dois modelos de organização das sociedades. O Neoliberalismo Norte-americano e sua economia de mercado baseada em meritocracia, e o Socialismo Chinês com sua economia em estado permanente de keynesianismo e schumpterianismo do pleno emprego. Essas duas faces da mesma moeda de mercado se realizam no industrialismo, e sua identificação com os valores da afluência material, como denunciado a décadas atrás pelo pensador suíço Ivan Illich. Com diferenças regionais, vê-se os vetores da produção do pensamento único, o controle dos desvios da produção cultural via redes sociais, e a celebração de toda liberdade, que não questiona as estratégias de expansão das duas superpotências. Ao mesmo tempo há uma enorme espaço para novas experiências nas brechas multilaterais e clivagens culturais planetárias potencializadas pela nova guerra quente.

Mercado Financeiro e os Commons